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terça-feira, 11 de março de 2008

PRO CHÃO, 20 FLEXÃO!

http://www.exrx.net/Calculators/PushUps.html

Em algum momento da sua vida, você já ouviu um berro desses (especialmente se você for homem, prestou serviço militar e/ou foi escoteiro num grupo meio paramilitar). No link acima, você pode calcular como estão suas habilidades pagadoras de flexão de acordo com sua idade e gênero.

É só digitar a idade e quantas flexões você consegue fazer, escolher qual seu sexo (não tem transsexual) e apertar "Calculate" (o link é em inglês, a propósito). Inútil e sem graça, mas informativo até.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Hoje eu acordei pra fazer merda

Fiz a chinelagem que prometi fazer, mas a coisa não foi tão chinela como esperava. Não acho que vale a pena escrever algo sobre o episódio, então fica para a próxima vez que eu fizer alguma merda realmente doente.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Hoje eu acordei pra fazer merda - Prólogo da Chinelagem

Amanhã vou aloprar e fazer uma loucura com há tempos não faço, e vou escrever um post sobre isso. Aguardem.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Post sobre Culinária Universitária (CU)

Aqueles que acompanham este blog desde seus primórdios devem lembrar que em várias ocasiões escrevi posts com temáticas alimentares (especialmente quando estava morto de fome). Hoje, volto à carga para falar da comida do Restaurante Universitário da UFRGS, RU para os íntimos, Bistrô le RU para os mais íntimos e Bistrô Le RUim para os desafetos.

Em outras ocasiões já falei do nosso amado RU, local folclórico da Federal. É extremamente barato comer ali, apenas R$ 1,30 a refeição, e R$ 0,30 o suco de água colorida com açúcar. É também um local muito rico em trocas sociais, pois todos os estudantes de todos os cursos do campus mais próximo almoçam e até jantam ali. É também um lugar de muita paz e harmonia, pois apesar de toda a baderna e correria para encontrar mesas para comer sentado, só uma vez presenciei uma briga com este motivo (e tenho minhas dúvidas se este era realmente o motivo).

Outra coisa marcante no RU é a qualidade da comida e como ela é avaliada. Tem muita gente que adora o rango do RU (eu inclusive), e muitas gente que simplesmente detesta. Os restaurantes dos diversos campi também são avaliados de forma diferente: até agora, o RU do Vale é o que mais acumula reclamações, enquanto que o RU do Saúde é o campeão em elogios absolutos, e o RU da Agronomia em qualidade dos elogios. O RU do Centro é o mais ambivalente: as vezes é o melhor, as vezes é o pior. E o RU da ESEF é o mais promissor (falo mais dele quando estiver construído e funcionando).

Apesar de achar a comida gostosa, já passei mal depois de quase uma semana só no feijão com arroz do RU. Na sexta-feira daquela semana preferi comer pão com ovo frito do que dar as caras no infâme bistrô.

E ainda assim, mesmo depois desta traumática experiência, continuo comendo lá. Hoje fui até o Campus Centro almoçar, pois o restaurante de lá é o único funcionando nessa época do ano. Nunca tinha almoçado lá. Quanta diferença dentro de uma mesma universidade. A comida não era muito diferente da do Saúde, mas as bandejas... bem, como bem definiu meu colega Daniel "aquilo não são bandejas, são pedaços de metal que foram para guerra, foram pisoteados, amassados, e quando não serviam pra mais nada, mandaram para o RU pra servir de bandeja". De fato, o nível de tortura das bandejas era muito maior do que eu estava acostumado (ou esperando). Além disso, o RU do Centro tem uma aparência de "refeitório de presídio", enquanto o do Saúde é chamado de "McRu". Bem, acho que devo ir me acostumando com isto, pois esta semana inteira não tenho outro lugar para almoçar (e jantar) a não ser o meu querido RU. De certa forma, almoçar por 1,30 não tem preço.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Ciclos de um Blog e de um Blogueiro - Especial de Aniversário do R&A

Hoje é um grande dia. Por uma confluência cósmica, ou tremenda coincidência, hoje é o aniversário do "Roqueiro e Alcoólatra" e o dia em que deixo de ser bixo para virar veterano. Pelo menos oficialmente. Não sei se é uma boa idéia falar do blog ao mesmo tempo que falo da minha carreira acadêmica, ou da minha vida propriamente dita, mas ontem ao voltar para casa depois do almoço, notei passei por vários ciclos completamente diferentes um do outro desde que comecei a escrever aqui. Quem começou tudo, há exatos dois anos atrás, foi o Huginn, que originalmente atendia por Palestrante, devido a sua fama de falastrão bom orador no Ensino Médio. Quatro dias depois, entro eu nesta brincadeira, com o nome de Andarilho, que na época, e acredito que até hoje, representava muito bem meu ser. Um mês depois, apareceu o Midiway. O nome dele até hoje me é uma incógnita. Prefiro pensar que ele assim escolheu ser chamado no Reino da Interweb por causa da lendária Batalha de Midway, que marcou o começo do fim da II Guerra Mundial no teatro do Oceano Pacífico. Na verdade, o Huginn já me explicou a origem do nome e não é nada disso, mas prefiro manter a sua fantasia.

Quando comecei a postar aqui, eu estava nos Estados Unidos da América, em um programa de intercâmbio cultural, estudando em uma típica escola High School, como aquelas que aparecem nos filmes, com os jogadores de futebol americano batendo nos nerds da escola e comendo namorando as cheerleaders. É tudo verdadeiro, exceto a parte dos nerds e das cheerleaders. Até consegui uma daquelas jaquetas bonitonas que os jogadores usam. Azul com uma letra branca e meu nome bordados. Pena que ela seja quente pra cacete e o Brasil não seja frio pra cacete, pois seu uso é bastante limitado. Bem, o que eu quero dizer é que as coisas eram bem diferentes enquanto eu estava em Glenwood City, Wisconsin. Todos os dias encerravam possibilidades inimagináveis no Brasil. Nunca escrevi a respeito disto antes, mas eu tive a oportunidade de ver "Brokeback Mountain" num cinema encravado bem no meio de uma terra de cowboys, acompanhando uma família de cowboys! Foi uma experiência sui generis ver algum macho saindo da sala a cada cena de beijo ou sexo entre indivíduos do mesmo gênero (gay buttsex para quem se aventura em fóruns de língua inglesa na internet como eu). Cada dia era um universo em si mesmo. Não escrevia tanto para o blog, pois sublimava meus desejos escritores em um diário pessoal (acabei escrevendo três), mas quando escrevia para o blog acho que me superava. Na época, me imaginava como o campeão do blog: que não posta todos os dias, mas sempre que ele corre perigo ou precisa de um conteúdo mais denso. Depois de uma pequena puxada de orelha do Palestrante por eu quase nunca atualizar o R&A, comecei a escrever um pouco mais (mas nem tanto).

Depois de quatro meses por lá, voltei para o Brasil. Novo ciclo, novos assuntos para o blog. Ou seriam assuntos novos mesmo? Pois, de certa forma, estava "voltando" para minha vida pregressa, apesar de completamente mudado. Ao contrário da vida que levava nos EUA, cheia de novidades e atividades, minha "nova vida velha" em Caxias do Sul era estagnada e até mesmo previsível. Além disso, eu estava de férias: formado no Ensino Médio e sem faculdade nenhuma para fazer, o remédio era esperar começarem as aulas do cursinho pré-vestibular e treinar Kung Fu. Os fatores psicológicos que enumerei com certeza influenciaram bastante nos assuntos que escolhi e como os escrevi. Sentia-me comprimido em uma cidade pequena demais, não fisicamente, mas emocionalmente. Queria ir embora.

Foi um ciclo de curta duração, pelo o que devo ser grato, se não à Deus, pelo menos aos meus pais e ao Pré-Vestibular Mauá, que me tiraram daquela pasmaceira. E como me tiraram! Logo no primeiro dia de aula, descobri que seria colega de sala de dois amigos dos escoteiros: Maurício, companheiro de trincheira desde os 9 anos de idade, e Bábi, namorada de um outro combatente e eventual companhia de conversas. Com as aulas, esse "eventual" se tornou "diária", não só para as bobagens clássicas de serem ditas em sala de aula (aquelas que se grita para deixar o professor vermelho ou se surrurra até alguém fazer "Pssst!" ou mandar ficar quieto. As duas variedades aconteceram com bastante freqüência), mas também assuntos da alma, mais profundos, assuntos que surpreendentemente são do interesse de um candidato a estudante de Psicologia. Através da Bábi também conheci a amiguinha Nessa, a guria quieta do grupo, mas que surpreende quando abre a boca. Depois de um tempo, fizemos amizade com as gurias que sentavam na nossa frente (Geo, minha concorrente Mile, Nati e Cris), e com os animais que sentavam nas cadeiras logo atrás (não, eu não vou dizer que o Gil, o Róger e o Alex sentavam atrás de mim). Meus assuntos da época eram mais sobre disciplinas do cursinho, factóides, números do vestibular da UFRGS, reclamações contra professores, essas coisas de vestibulando. Foi uma época que o R&A se encontrava em uma quase more, e eu praticamente sozinho mantive o fluxo de posts andando, com textos mais superficiais e repetitivos do que gostaria, mas novos.

A época do vestibular veio, passou, e logo depois eu narrei minhas aventuras em Porto Alegre, especialmente todas as vezes que fiquei perdido na capital gaúcha. E não foi só o vestibular que passou. Eu passei também. NO vestibular. Tinha uma vaga na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, prestigiosa e gratuita. Daquela trupe que eu falei, passaram poucos: eu para Psicologia, a Nati para Química, a Nessa para Matemática (guria louca) e o Gil para Agronomia (que foi o que mais cantou vitória de nós todos, apesar de ter passado para o segundo semestre em Agronomia). A Geo decidiu deixar de lado a sua universidade dos sonhos e fazer Direito na UCS. O Maurício arranjou um emprego como prostituto mecânico, graças ao seu diploma do SENAI, e passou no vestibular de inverno para Engenharia Mecânica na UCS também. A Mile deixou de ser minha concorrente e virou minha colega de curso federal, pois passou para Psicologia na FURG. Já a Bábi vai passar para Arquitetura esse ano na UFRGS (só falta o Listão confirmar).

E assim começou o ciclo universitário da minha vida. Deveria ter feito um post sobre minha mudança, como foi um pé no saco carregar o sofá escada abaixo em Caxias e escada acima em Porto Alegre, a alegria do trote, a efêmera magia que senti nos primeiros dias de aula... mas acho que estava ocupado demais com estas sensações para escrever qualquer coisa mais elaborada. Nesta época o blog (palavra sumida nos últimos dois parágrafos) sofreu algumas mudanças: em primeiro de dezembro de 2006, Huginn (não mais Palestrante) tirou Midiway da lista de colaboradores do R&A, pois ele... bem, não colaborava. É só olhar as estatísticas que eu fiz. Ele tem só 3 posts publicados em quase 11 meses. Muitas piadas e críticas fiz a respeito da inércia de Midiway (fiz umas tão debochadas que o amiguinho veio me deixar xingamentos via rascunhos. Até hoje tento convencer, sem sucesso, o Huginn a publicá-las). Por um tempo, eu e Huginn fomos apenas uma dupla de dois, até primeiro de março de 2007, quando viramos uma dupla de três com Lady Hell, a jogadora de Diablo II que tirou seu blogonome da feiticeira (ou maga?) que criou para jogar. O sangue novo da Lady animou o R&A e a nós mesmos, tanto que decidimos convidar outro postador em abril: o metaleiro abstêmio Rainmaker, que tirou seu nome de uma música do Iron Maiden. Bem, o convite não teve o sucesso que esperávamos, pois após uma semana e uma intimação do Rato Gordo, Rainmaker não havia postado nada ainda. Nossa experiência com Midiway não nos ensinou a compaixão por colaboradores que não colaboram, e mais uma vez, um postador é mandado embora.

O ciclo universitário da minha vida refletiu-se, mais uma vez, nos assuntos que escolhi e o estilo que os escrevi: foi mais ou menos no início da faculdade que criei a série "Coisas que aprendi na Faculdade", que vocês conhecem tão bem. Expressei minhas angústias filosóficas decorrentes das aulas de Psicologia, minhas indignações com o mundo acadêmico e os prazeres e as dores de estudar numa universidade pública. Meu ritmo de vida mudou também. Antigamente, quando lembrava da minha vida, pensava em que ano as coisas ocorriam. Agora penso por semestres, que de tão cheios e atarefados, fazem o ano letivo parecer dois, um completamente diferente do outro. As férias de inverno são quase tão preciosas e longas quanto as de verão, com a diferença que elas são bem mais curtas (ah, a contradição!). Nesta etapa da minha vida passei a viajar muito mais (e não só na maionese): visitei Curitiba, Buenos Aires e Florianópolis, me tornei um cidadão de Porto Alegre. Acho que dá para imaginar o quanto eu andei de ônibus por este mundo velho sem porteira (acho que vou até escrever um post em separado sobre o assunto). Mais uma vez, estas viagens influenciaram meus posts. Comecei a escrever sobre minhas aventuras em Curitiba para o Encontro Nacional dos Estudantes de Psicologia (ENEP), mas parei no meio por uma ausência de reforçadores, e por que o Huginn vivia me dizendo "escreve textos mais curtos que nossos leitores são semi-analfabetos!". OK, ele não disse a parte de escrever textos mais curtos que nossos leitores são semi-analfabetos, mas isso me encheu o saco. Posso voltar a escrever sobre Curitiba um dia se algum colega de faculdade me der uma ajuda na hora de relembrar os acontecimentos.

No segundo semestre do ano o filho pródigo a casa retornou: Rainmaker tomou vergonha na cara e prometeu ao patrão Huginn que ele postaria com mais freqüência no blog. Hoje seria uma boa hora para cumprir com sua palavra, não acha, amigo Rainy? No segundo semestre do ano, como todo bom blog de família que se preze, também fomos vítimas do ataque de um anônimo, Mr. Magoo, que tanto encheu (e pelo jeito, ainda enche) nosso saco, magôou (Magoo magôou) o Rainmaker, deixou a Lady Hell possessa, o Huginn aparvalhado e eu, com vontade de convidá-lo para postar junto conosco. Com certeza teríamos muito pano para manga em discussões entre ele e a Lady.

E agora, início de 2008, outra fase termina e outra fase começa: neste exato momento, estou na espera do Listão dos classificados da UFRGS. Há um ano atrás, estava esperando a mesma coisa, só que com expectativas completamente diferentes. Há um ano atrás, pensava "será que passei?", "como serão meus colegas?", "como será morar sozinho em Porto Alegre?", "será que eu agüento?" e muitas outras perguntas nunca ditas. Hoje, após um ano de muita gargalhada e luta, já tenho a resposta para quase todas elas. Mas também tenho muitas perguntas novas: como é ser veterano? Serei eu um bom veterano? O que vai mudar com a entrada dos bixos? Será que eles vão ser uma turma legal como a nossa ou um bando de bundões como... algumas turmas por aí?

O DeLorean Voador aqui do lado mostra toda essa história. Não deixa de ser uma máquina do tempo de verdade. Deixo aqui meu feliz aniversário para o Roqueiro & Alcoólatra e para o Huginn (sábado a gente se fala), meus parabéns para os bixos de Psicologia e Fonoaudiologia que ainda não conheço, meu agradecimento a você que leu e ainda lê nossas bobagens, que as vezes são sérias, as vezes não, e minha esperança de continuar escrevendo por aqui, não importa quanto ou quantas vezes minha vida mude.




PS: Fama é coisa de boiola, Huginn.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Vida Dura (Parte 3)

Apesar de posts anteriores aparentemente degradarem a imagem infantil, eu respeito imensamente as crianças. Afinal, eu também já fui uma. E devo dizer, ser criança é mais difícil do que pode parecer para observadores externos. Uma das épocas mais tenebrosas é o Natal. "Mas é quando as crianças mais ganham presentes, Amiguinho Andarilho!" Verdade, meu astuto amigo imaginário (que de agora em diante chamarei de Bob. Bob Alhão). Mas para que elas possam receber os cobiçados presentes (o CD do RBD, a fantasia de RBD, a boneca do RBD, o vibrador do RBD... et cetera) elas precisam passar por provações quase infinitas.

A mais dura pela qual tive que passar foi cantar no coral de Natal da escola. A professora que organiza este tipo de bobagem geralmente é uma senhora de 50 anos, 30 destes dedicados ao magistério, lendo livros da Martha Medeiros e de educadores de formação psicanalítica. Ou seja, nada que preste. Então, para sublimar sua libido, elas inventam alguma merda para seus aluninhos queridos fazerem, como cantar músicas escrotas de Natal (perdoem a redundância). A seleção musical é sempre a mesma, o que me leva a acreditar que estas senhoras compartilham de apenas um cérebro coletivo, cujo uso pessoal está condicionado à um sorteio semanal. A música mais clássica de todas é a "Música da Família". Sim, caro amigo, você pode não se lembrar, mas já cantou esta obra de arte para centenas de pessoas, entre elas pais entusiasmados a filmar, irmãos mais velhos entediados e namorados de irmãs mais velhas querendo ganhar uns pontos com o sogrão. Caso você não lembre desta maravilha sonora, relembrar é viver! Acompanhe a melodia e cante junto. Isto não aconteceu uma ou duas vezes comigo, mas várias vezes. Como nosso colégio não tinha um auditório, iamos nos apresentar na escola Cristovão de Mendoza.

Mas meu espírito de fogo se revoltou contra esta situação, e em um certo ano (acho que foi na quarta ou quinta série), nos revoltamos, e ficamos rindo e cutucando o microfone no meio da música. Foi divertido pra cacete. O que não foi divertido foi a psicóloga da escola, Vânia, por nos chamada de Fânia, devido ao seu pouco entrosamento com os outros trabalhadores da área da saúde, como fonoaudiólogos, nos puxando pelo braço e nos botando de castigo num canto escondido da platéia. Também não foi divertido o outro castigo que eu tomei do meu pai (sempre ele. Começo a pensar que Freud estava certo) por este desrespeito ao sistema. Fiquei um mês sem videogame. Ou uma semana. Sei lá. Isso não importa mais. O que realmente importa agora é que tive que me comportar como um bom menino em uma outra apresentação, desta vez nos pavilhões da Festa da Uva para algum outro feriado besta. Mas então já era tarde. Eu já era um cretino de carteirinha. E eu ganhei presente igual. Enganei Papai Noel.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Ei, Psiu!

Preciso confessar: eu tenho outro blog. Não é o que você está pensando! Eu continuo leal ao Roqueiro & Alcoólatra, mas criei este meu outro blog por necessidade profissional. É o Blog do Psiu!

Criado com o intuito de disponibilizar para as futuras gerações as edições virtuais deste maravilhoso exemplo de jornalismo de guerrilha.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Aloprando em Curitiba (Parte 7)

Dia III: Saíndo do armário

Parte IV - Início da Noite

Nossa! Fazia tanto tempo desde o último post desta série que eu até tinha me esquecido como eu formatava os textos! Só espero lembrar do que rolou em Curitiba.

Mas enfim! Saí correndo para comer alguma coisa e, sonhando com um xis, queria ir direto para o Alemão. Mas resolvi ser cordial e passar na sala do GDV do pessoal lá da UFRGS, sobre Reforma Curricular, comandado pelo Chico (auto-proclamado dono do motel mais barato de Curitiba) e Cris, a amável metaleira do quarto ano que me convenceu (quase à tapas) a ir pro GDV de Estatuto. Queria ter participado da discussão, considerando que eu sou aluno do novo currículo da Psicologia da UFRGS, mas o dever falou mais alto. Pena. Deu para perceber que a discussão foi muito boa só pelo "escrotidão" escrito no cartaz feito pelos participantes (e pelo Chico xingando um mala de Minas Gerais).

Depois que limparam a sala onde o GDV ocorreu, ficamos fazendo hora no corredor. Enquanto desempenhavamos esta importante tarefa, a Cris veio me pedir qual era proposta que o pessoal da UFMS tinha feito para modificar completamente o estatuto e o que tinha sido discutido a respeito. Respondi que o Leo só fez destaques pontuais. Quase o tempo todo, verdade. Mas mesmo assim, não eram mudanças tão radicais. Foi só eu dizer isso que a Cris me falou algo que me deixou louco da vida: logo depois que saí da sala do GDV de estatuto, os caras da UFMS distribuiram a proposta deles. Senti-me traído. Mas eu teria mais uma oportunidade de encarar este problema. Outro problema muito mais importante me incomodava no momento: a fome. Alguns de meus colegas já tinham se bandeado para o Alemão para jantar, então fomos nos juntar a eles.

A arquitetura do Alecrim é muito simples: uma área com mesas externa, duas portas grandes daquelas que se fecham com portão de ferro, uma área com mesas internas e o balcão. Meus colegas estavam sentados atrás da parede entre as portas, de modo que não conseguia enxergá-los da rua. Por isso, só sabia que eles estavam lá por causa de suas vozes. E a voz que mais me irritou durante o dia inteiro estava lá: Leo. Claro que ele estava falando pelos cotovelos. Não posso negar, porém, que foi uma boa oportunidade de confrontá-lo a respeito daquelas propostas de estatuto que eles começaram a distribuir. Como a parte racional da minha mente desconfiava, eles não esperaram eu sair para começar a distribuir a proposta. Foi apenas uma infeliz coincidência, se é que isso existe. E as propostas distribuidas foram as mesmas que ele propôs. Mas enfim, ninguém deve mais agüentar ler a respeito do Leo e seu estatuto, e nem eu agüento mais escrever sobre ele. Ainda bem que ele foi embora logo e me deixou jantar em paz.

Continua...

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Aloprando em Curitiba (Parte 6)

Dia III: Saíndo do Armário
Parte III - Meio da Tarde

... Pois é. Já deve ter dado pra notar que tinha me metido em furada. O GDV começaria lá pelas 14:30, 15 horas. Tinha impressão de que a coisa iria longe e que a discussão seria brutalmente chata. Já estava arrependido de ter me oferecido como voluntário, mas era tarde. Não iria refugar.

Três tipos de pessoas vão nestes grupos de discussão: voluntários como eu, desavisados que não sabem o que têm pela frente como meu colega Álvaro (que não aguentou 30 minutos) e os que gostam de debater estatuto. Tenham medo, muito medo deste tipo de gente. Eles eram maioria naquela salinha do canto do Cecília. Não lembro de todos eles, mas dos mais falantes é impossível esquecer. Darei uma breve descrição de do histórico e personalidade de quem eu lembrar. Pensem nisto como sendo o Street Fighter, e os participantes dos GDVs como os personagens. Ei-los:


Santiago - O paulistano mais paulistano de toda São Paulo. Cara gente boa mas com péssimo gosto para hobbies. Da mesma forma que eu, está envolvido neste tipo de indiada desde o primeiro semestre de faculdade. É debochado ao extremo, mais do que eu, e não vê nenhum problema em descer a lenha em ninguém. Pensem nele como sendo o E. Honda do Street Fighter II, só que com uma suissa maior e com cabelo curto. Estuda na Universidade de São Paulo (USP) e vai dessa para melhor este ano (se forma, quero dizer).

Leo - Esse cara estava na organização do ENEP inteiro, fez parte de umas 2 mesas-redondas, e quando precisava de um porta-voz, era ele quem dava as caras. Devia ter falado nele em posts anteriores, mas memórias encobridoras me impediram, por causa de sua voz extremamente irritante. Não que a voz dele realmente seja irritante, mas tive que ouvi-la tantas vezes por tanto tempo que fico nervoso só de pensar nela. É educado, tem fala macia (e chata), e é metido em politicagens até o pescoço. Parece o Dhalsim, só sem aquelas pinturas no cucuruto. Estuda na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).

Minerim - Não lembro o nome dele, infelizmente, pois é um cara legal, apesar de gostar de falar de estatutos. Como um bom mineiro, é bencalmim e fala "trem". Comparando com personagens do Street Fighter, ele é quase um Zangief, só que mais cabeludo, mais barbudo e menos musculoso (e mais simpático). Estuda na Pontíficia Universidade Católica (PUC), só não me pergunte qual, por que o ônibus que veio de Minas Gerais trazia estudantes de 4 PUCs diferentes.


Carioca Chata do PT light - O apelido diz tudo: carioca, chata e petista. Nada contra petistas. Não gosto da oposição também. Tem uma voz verdadeiramente irritante. Eu pensei em dizer que ela é parecida com o Blanka, mas como me sinto generoso, digamos que ela parece a Sakura (do Street Fighter, não a Card Captor!). Vocês decidem o que vocês preferem. Estuda na PUC do Rio de Janeiro (PUCRJ).

Peguete da Carioca Chata - Entrou mudo, saiu calado. Ou pelo menos, não disse muita coisa. Nem me dou ao trabalho de procurar algum personagem para representá-lo. Acho que estuda na PUC de São Paulo (PUCSP).

Amanda - Garota muito legal. É engajada em política a ponto de ser a organizadora do GDV de Estatuto. Parece a Shun Li com roupas de gente. Estuda na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

Andarilho (eu) - Esquizóide, paranóide e debilóide por ter entrado numa furada dessas. Não gosta de gente prolixa, que por incrível que pareça eram os mais numerosos neste GDV. Gosta de cookies. Parece com o Ken (não o namorado da Barbie). Estuda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Ao contrário do que parece no capítulo anterior, esse GDV não foi nada empolgante. Aposto que mesmo o Narrador da Seção da Tarde seria incapaz de narrar esta porcaria de forma positiva (Essa galerinha do barulho vai passar por altas discussões para decidir um alto estatuto da pesada). Foi tão chato que, se desse para pedir reembolso de tempo perdido, pediria 6 horas da minha vida de volta.

No começo da discussão, a Amanda fez uma dinâmica de grupo (por que psicólogo a-d-o-r-a dinâmica de grupo), com umas frases no quadro, onde tinhamos que identificar quais faziam parte do estatuto da CONEP. A única coisa que prestou desta dinâmica foram os comentários do Santiago, que escreveu o estatuto, como "Esse parágrafo é um frankenstein, meu!" ou "de onde cê tirou essa daí, da proposta que a Conlute queria nos empurrar goela abaixo?". Depois, começamos a ler o estatuto de cabo a rabo. Para variar, um ou outro idiota ignorava que estavamos apenas lendo, e ficava reclamando do inciso 7 do parágrafo 4 da seção III. Daí, foi um pulo para um discussão sobre o status do Movimento Estudantil no Brasil. Era interessante, mas fugia do assunto de uma maneira indecente. Mesmo assim, valeu a pena pra ver o Santiago falar do DCE de misses e playboys que foi eleito na USP por ter feito uma proposta de gestão de 1 página onde a palavra "festa" aparecia 7 vezes e chamar alguns antigamente opositores da UNE de "UNE-boys" e ver a Carioca Chata ficar louca da vida, reclamando que "Não era assim que se fazia movimento estudantil, cara!". O Minerim falando dos anarquistas da universidade dele avacalhando com o DCE também foi legal. Meu colega Álvaro estava lá também, não aguentou e foi embora. Claro, ele podia. Depois disso, voltamos a ler, mais uma vez desde o início, mas fazendo destaques do que achávamos importante. Foi mais ou menos assim: a Amanda lia "Seção II", o Leo levantava a mão e pedia "Destaque". Praticamente todo o estatuto foi destacado por ele. Considerando que avaliaríamos apenas os destaques, seria uma loooonga tarde. Acredito que todos fizeram algum tipo de destaque, inclusive eu (estava duvidando de que o ENEP sairia anualmente). Foi aí que começou a merda toda.

Discutiríamos os destaques. Todos teriam direito a voz e voto. Se quisesse falar, teria que se inscrever, e quando chegasse sua vez, poderia falar até dois minutos. Repito: ATÉ dois minutos. Acho que só eu segui essa regra. Esta parte foi tão chata que vou resumir o máximo possível. Basicamente, passamos uma hora e meia discutindo os dois primeiros destaques, que eram os mais mixurucas. Me indignei com a falta de objetividade do povo e abri a boca. Andamos mais um pouco. O Leo e a Carioca Chata se puxaram para serem murrinhas. Ela especialmente. Houve um momento que eu cansei, simplesmente não SUPORTAVA MAIS simplesmente OUVIR a voz horrorosa dela. Eu pensava "Já deve ter passado dos dois minutos há muito tempo". Foi quando ela finalmente tomou cortaço, pois ficou falando por 5 minutos. Mais duas horas depois, reclamei de novo, pedindo por respeito ao regimento da discussão, pois, se não éramos capazes nem ao menos de respeitá-lo que dirá de um estatuto. Aliás, o regimento interno foi jogado fora. Tinhamos estipulado um prazo de terminar a discussão até às 18:00. Ficamos lá, cozinhando em água fria, até às 19:30. Deadlines are for sissies. Prazos são para frescos. Claro que reclamei da falta de respeito pelo horário.

Falando assim, parece que eu era o mais reclamento. Pelo contrário, eu era o segundo mais quieto da sala (atrás só do Peguete da Carioca Chata). Talvez se tivesse falado mais aquela merda tivesse acabado mais cedo, mas não sentia que tinha nada para contribuir com a discussão. O que falei de relevante foi ignorado pelos outros. Bem, dane-se, fiz minha parte e falei o que achava.

Já eram 19:30, e estávamos ficando com fome. Decidimos continuar a discussão na manhã seguinte.Fiquei estupendamente feliz quando eu perguntei "acabou?" e responderam que sim. Não fiz a menor cerimônia de sair correndo da sala para jantar. Foi um prazer hedonista tremendo. Sabia que teria que sofrer de novo no dia seguinte, perder a chance de fazer uma atividade bacana para ficar ouvindo lero-lero de politiquentos. Mas naquele momento, naquela hora, eu podia comer. E eu ia. Comer um xis no Alemão, era tudo que eu queria.

Continua...

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Aloprando em Curitiba (Parte 5)

Dia III: Saindo do Armário
Parte II - Início da Tarde

... E os chicletes não adiantaram pra muita coisa, pois fiquei arrotando alho por mais um bom tempo (que finésse esse começo de post!). Mas almoçado eu já tinha. Precisava me concentar em outra necessidade básica: minha higiene. Para variar, esqueci o xampu e o condicionador no alojamento. Não iria comprar merda nenhuma, então peguei emprestado. Precisava de uma sacola plástica para colocar minha toalha molhada depois do banho, afinal de contas ela iria ficar na mochila de outra pessoa por pelo menos 4 horas, e a não ser que eu quisesse ser ingrato e criar uma colônia de fungos nas coisas do Daniel, um certo isolamento material era necessário.

Passei no mercado, procurando alguma coisa para comprar e ganhar uma sacola plástica de presente. Achei numa geladeira mais para o fundo do estabelecimento um estoque de latinhas de Lipton Ice Tea, e geladas! Mataria dois coelhos com uma caixa d'agua só (até por que a do alojamento ainda deveria estar pela metade), e consegueria uma sacola e um chá gelado depois do almoço. Cheguei no caixa, paguei e fiquei esperando pela sacola. Fiquei olhando para a cara da caixa, e quando eu percebi que a sacolinha não iria criar-se espontaneamente no ar, pedi por uma. Meus problemas estavam resolvidos, pelo menos por enquanto.

Hora do banho! O chuveiro do Cecília era infinitamente mais asseado do que o do Aljazera. Dava até pra sair limpo de lá! Como é de praxe neste tipo de evento, havia 2 chuveiros no banheiro, mas só um esquentava a água. E como quase todo mundo quer banhinho quente, tinha fila para este chuveiro. O Santiago, o paulistano mais paulistano de toda a São Paulo, já disse que ele era o primeiro da fila para o banho quente. Usando a lógica, resolvi tomar banho frio mesmo, pois era muito difícil que alguém mais estivesse disposto a fazer isso, além de ser mais rápido (por motivos óbvios).

Enfim, a higiene se fazia presente em minha vida, e poderia finalmente mexer no meu cabelo sem ficar com a mão engordurada. Poderia então cumprir minha missão. "Missão?!?! Que porra que ele tá falando?" vocês devem estar se perguntando. Sim, tinha me oferecido como voluntário para participar do GDV mais casca-grossa de todos: o de estatuto do Conep (Coordenação Nacional dos Estudantes de Psicologia). Em condições naturais de pressão, temperatura e retardo mental, eu nunca participaria de uma coisa dessas. Aliás, quando vi o GDV de estatuto na programação a primeira coisa que pensei "nesse daí, nem a pau, Juvenal". Mas é, eu fui. E como voluntário. Tive bons motivos para isso, contudo. Rolavam boatos que havia aparecido uma proposta completamente nova de estatuto, que mudaria tudo. Geralmente, quando uma coisa assim aparece, é algum partido ou movimento político, geralmente de extrema esquerda, tentando fazer com que um movimento estudantil trabalhe para sua causa. O P-Sol, o PSTU, o PCO e a Conlute (Coordenação Nacional da Luta Estudantil) já fizeram dessas, como propor que a Conep se declaresse contra a guerra no Iraque porque, claro, se o Bush soubesse que os estudantes de Psicologia brasileiros são contra a guerra no Iraque ele iria se sentir tão culpado que ele iria tirar todas os seus soldados de lá imediatamente.

Mas, se a proposta era completamente nova, com certeza não seria tão simples (e estúpida) como o exemplo citado. Seria necessário um guardião implacável, aguerrido, corajoso para impedir que tal infâmia se abatesse sobre o estatuto. Mas quem seria este bravo? Um gaúcho, centauro dos pampas, claro! E quem melhor do que eu, Andarilho, calouro, perdido como peido em bombacha, para desempenhar tão importante missão?

Continua...

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Aloprando em Curitiba (Parte 4)

Dia III: Saindo do Armário
Parte I - Manhã

Mais um dia por Curitiba, mais uma manhã sem tomar banho... pois a caixa d'água ainda estava enchendo. A organização do evento dizia que ao meio-dia poderiamos tomar usar a água normalmente. Mas meio-dia era uma previsão otimista demais, e não demorou muito para mudarem o prazo para às 13 horas. Que depois deve ter sido mudado de novo para bem mais tarde, mas não fiquei muito tempo por lá para descobrir. Já tinha passado da hora do café da manhã no Cecília Meirelles, mas convenientemente o bar da escola onde estavamos alojados resolveu fazer "hora extra", vendendo pão com margarina, banana e café. Conveniente e prático. E o pão francês não era dormido como eu me acostumei a comer em Porto Alegre (já que é mais fácil comprar um pacote de pão de sanduíche e comer até ele mofar).

Como deve ter dado para perceber, acordei tarde, pelo menos tarde demais para as mesas-redondas e atividades da manhã. Não me preocupei muito com isso na hora. O banho diário era mais importante. Separei minhas roupas e minha toalha, e pedi para o meu colega Daniel , grande conhecedor das estátuas do Instituto de Artes da UFRGS, guardar na mochila pequena dele, para levar e tomar banho na sede mesmo.

Não me lembro muito bem dos detalhes desta parte do dia. Lembro que eu e o Daniel fomos a pé do Aljazira até o Cecília, e almoçamos no Alemão, pois já era quinta-feira, e não tinhamos comprado tickets de alimentação para o dia, coisa que deveriamos ter feito para o resto da semana. O boteco onde comemos tinha bifê livre por R$ 5,50, ou coisa assim, mas o dono era gente boa, e fez uma promoçãozinha, e por 7 pila ganhavamos um suquinho. Tá, foram só 50 centavos de desconto, mas ainda assim era mais dinheiro para gastar em alguma outra porcaria.

E não levou muito tempo até eu achar alguma coisa para gastar. Desesperado que estava para comer alguma coisa temperada decentemente, peguei macarrão ao alho e óleo. Uns chicletes eram obrigatórios naquela altura do campeonato.

Continua...

domingo, 12 de agosto de 2007

Coisas que aprendi na Faculdade (Parte 31)

Dicas de Ouro para a UFRGS

1- Campus do Vale:
A) Não pise na grama do Campus do Vale. Os cachorros cagam nela. Muitos cachorros.

B) Não importa qual o seu curso, ou quantas vezes você vai para o Vale por semana, o Homem das Pastilhas vai te abordar com a famosa frase "Compra uma balinha pra ajudar o amigo?" ou "Tem um V.T.* pra ajudar o amigo?". Esteja preparado.

C) Se você sentir um cheiro forte de queimado em algum lugar mais isolado do Vale, não tenha dúvida: é maconha.

D) Quer almocar por R$ 1,30? Entre na fila cedo.

E) Prepare-se: o Vale é o lugar das revolucões estudantis. Semanais.

2- Campus Saúde:
A) Não tente atravessar o campus para chegar mais rápido do outro lado, a não ser que você esteja disposto a pular algumas muitas grades.

B) A Medicina reina no Saúde, e de modo geral, na saúde inteira também. Por isso, todos os prédios do campus terão, pelo menos, um andar inteiro dedicado exclusivamente à Medicina.

C) Use o seu cartão universitário pendurado como crachá, pra ficar com cara de "dotô".

D) Desconfie de quem usa crachá do Hospital de Clínicas. Ele provavelmente se tornará um médico.

E) Ao contrário do Campus do Vale, o Campus Saúde tem muitas alternativas para rango, pois há sempre um bar por faculdade. O melhor de todos, claro, é o da Medicina. O pior, claro, é o da Psicologia.

F) Idolatre Folha e Pretinha, os cachorros vira-latas do campus.

G) A FABICO** (Faculdade de Bilhar e Confraternizacão) oferece uma cadeira sui generis para todos estudantes da UFRGS: Sinuca em Condicões Adversas I, II, III e "Mais que 3 em números romanos".

H) Os administradores das faculdades deste campus são os mais cagados de toda a universidade. Portanto, tenha sempre sua carteirinha em mãos se quiser entrar em qualquer um dos prédios.

3- Campus Centro:
A) O lugar é velho. Brinque de "Indiana Jones e as Ruínas Gaudérias" enquanto você fica perdido ali dentro.

B) Tal como no Vale, o Centro é terreno fértil para agitacões estudantis.

4- Campus Olímpico (ESEF):
A) Fique gritando por "RU na ESEF JÁ!" sempre. Mesmo que o reitor já tenha se comprometido a construir um até o final do ano.

B) Aliás, fique gritando "RU na ESEF JÁ!" mesmo depois que o RU tiver sido construído.

5- Instituto de Artes:
A) Cuidado: o teto pode cair no seu cucuruto a qualquer momento.
B) Se quiser colar um cartaz em algum mural, você terá que preencher um formulário, mostrar a autorizacão da reitoria e acender uma vela para Santo Expedito. E torcer para que o funcionário que cola os cartazes não esteja de greve.
_________________________________

*V.T. - Vale Transporte. O Campus se chama "do Vale" por que você à falência sem as fichinhas rosas que te garantem meia passagem.

**Também conhecida por FABICOnha e FABICanha.

sábado, 11 de agosto de 2007

Aloprando em Curitiba (Parte 3)

Desculpa ai pra quem não tem tempo de ler todo esse catatau no trabalho (vulgo Michereff). Os próximos posts vão ser quebrados em várias partes. "Aloprando em Curitiba" vai ser a última série de indiadas minhas por aí, pois já me falaram várias vezes que os textos estão muito compridos, que eles tem que ser curtinhos. Certo, os próximos serão mais quebrados, mas vai a ser a primeira e última vez que faço isso.

Dia II: O Começo pra Valer

Depois da tempestade, vem a calmaria. Depois de toda festa, vem a porquice. Não precisem nem ao menos sair do saco de dormir para descobrir que o resto do alojamento estava uma imundície perfeita. Mas tive o prazer de ver a merda com meus próprios olhos, pois precisava tomar tirar água do joelho e tomar banho. Fui para o banheiro masculino. Olhei para o mictório, cheio de mijo até a boca, e pensei: já sou grande, posso segurar até achar um banheiro limpo. Tinha medo de transbordar no meu pé. Dei uma conferida nos chuveiros. O chão estava coberto com uma camada (que espero ser) de barro. Não queria arriscar pegar gonorréia ou coisa parecida pelos pés, e resolvi procurar outro lugar para tomar banho. Havia o infame banheiro unissex, no mesmo corredor de nossa sala. A pia de lá estava toda vomitada, mas era um lugar bem mais agradável para se tomar banho porque, afinal, era possível sair limpo de lá. Estava deveras preocupado com a minha pulseirinha amarela "Grita LUXO!!!", pois ela era de papel, e era a única coisa que me permitia entrar e sair do alojamento e dos eventos do encontro sem problema algum. E não dava para passar 5 dias sem banho só por causa da pulseirinha. Mas ela agüentou, até mais do que eu (FATO: as pulseirinhas só cairam do meu pulso dia 1 de agosto, depois de eu ter passado a faca nelas).

Uma ducha depois, já estava pronto para o começo oficial das atividades do encontro. Havia muitas modalidades de eventos. De manhã, ocorreriam apenas as mesas-redondas, que contavam com algum convidado (mais ou menos) ilustre, que faria uma breve palestra, e depois responderia à algumas perguntas. De tarde ocorreriam os GDV's - Grupos de Discussão e Vivência - onde ocorreriam debates sobre questões relativas à psicologia no Brasil, como reforma curricular, os NV's - Núcleos de Vivência - que seriam mais voltados para a prática de alguma atividade, seguida de um debate, e as oficinas, que seriam atividades mais lúdicas, como Tai Chi Chuan e Massoterapia. À noite, ocorreriam os ELO's - Espaços de Livre Organização - que eram organizados espontaneamente, por qualquer participante do encontro, para discutir qualquer assunto de interesse. Pessoalmente, considero os ELOs a parte mais legal do ENEP, por permitirem uma flexibilidade muito grande para os estudantes se articularem.


Chegando no Cecília, fui pegar meu café da manhã: maçã, suco de caixinha e um sanduíche. Basicamente, o que como em casa de manhã. Bom o bastante, mas restava saber se o almoço valeria o seu preço.

Para tristeza minha e do Daniel, Suely Rolnik não apareceu para sua mesa-redonda, por causa dos problemas que ocorriam no aeroporto de Congonhas. O jeito foi improvisar e procurar outra mesa-redonda que fosse tão interessante quanto a dela. Entrei na mesma que alguns colegas meus entraram, sobre o ensino de Psicologia no Brasil. Empolgante como corrida de lesma. Tanto eu quanto meus colegas aguentamos bravamente 5 minutos daquela conversa, antes de sair da sala e voltar a viver. Depois de 30 segundos para recuperar a atividade cerebral, fomos para outra mesa-redonda, muito mais interessante, onde um jornalista falava a respeito da Comuna de Oaxaca.

Lembro de ter feito também uma oficina de Tai Chi Chuan, mas não lembro muito bem o horário. Se não me engano, foi logo depois desta mesa-redonda. Foi bem divertido, mas acabou meio cedo. Deu tempo ainda de descobrir que os outros Urguenses estavam numa oficina de líquidos, onde eles brincavam de fazer suco com as combinações mais bizarras possíveis (como alface, laranja e tomate). Divertido.

Chegou a hora do almoço, e de ver se os 3,50 que gastem foram investidos de maneira adequada. Sinceramente, já comi coisa muito melhor por muito menos (viva o RU!). A bóia do dia era uma quentinha com bife (frio), massa (sem molho e sem sal), feijão com arroz e salada. Para variar, tinha esquecido os talheres no alojamento, e nem a pau que eu caminharia 20 minutos pra pegar um garfo (por que faca é algo desnecessário). Decidi comprar os talheres que estavam vendendo ali mesmo. Conveniente, não? Pelo menos era barato: a dobradinha "Garfo-Faca" era 50 centavos. Diziam que eram de qualidade, mas eram só uns pedaços de plástico mal cortado. Servia pra pegar a massa e o feijão.

Como as mesas estavam todas ocupadas, tivemos que comer no chão mesmo. Foi um momento Túnel do Tempo, e voltei a ser escoteiro por meia hora, comendo mal, sentado no chão de um lugar muito, mas muito longe de qualquer rastro de civilização. Mas este terno momento durou só até eu lembrar que também tinha deixado minha escova de dentes no alojamento. Sorte minha, estavamos do lado de um supermercado. Escolhi com muito carinho uma escova de qualidade, de cerdas macias, com cabo acolchoado... e que fosse barata o suficiente para jogar fora quando voltasse para Porto Alegre. Ou para o alojamento, dependendo do caso. Finalmente, depois de 5 minutos de procura, cai de amores por uma escova de R$ 1,10. Ela assegurou a minha higiene bucal, juntamente com o dentrifício emprestado de alguém.

Depois do almoço, começariam os GDVs. Já tinha pensado em participar de uns dois ou três. Mas quando fui ver, estavam todos, TODOS!, lotados. Esquizodrama? Lotado. Sexo, Drogas e Rock n' Roll? Idem. O Legado e Importância de Silvia Saint para a Psicologia? Infelizmente, esse GVD não chegou a existir, mas se tivesse, com certeza estaria lotado. Só me restava, então, achar um NV legal. Descobrimos um tal de Jogo das Cidades, que era como um War gigantesco, só que sem aqueles disquinhos de plástico. Nele, tinhamos que administrar os recursos naturais e tecnológicos de nosso país (o nome do jogo é enganoso, eu sei) para ganharmos mais dinheiro que os outros e ganhar. Os recursos naturais eram representados por folhas coloridas, e os tecnológicos eram materiais escolares, como réguas, compassos e lápis. Para "industrializarmos" nossos recursos precisávamos cortar determinadas formas trigonométricas, e depois vendê-las para o Banco Mundial (BM, ou Brigada Militar para os íntimos). Ficamos com a Bolívia. Nossa tecnologia consistia de um lápis com a ponta quebrada, mas tinhamos muitos recursos naturais.

E em tempo recorde também começou a trapaça no jogo. Um dos dois apontadores de lápis dos EUA (que tinha dois) sumiu, e ninguém sabia onde ele havia parado. Pouco tempo depois deste ocorrido, o governo cubano (ou era o iraquiano?) aparecia com uma proposta muito indecorosa de transferência de tecnologia. Eu, como Ministro de Porra Nenhuma, fui contra tamanho descalabro moral, dizendo que era um absurdo fazer tal... descalabro contra a... democracia, e coisa e tal! Acabamos fazendo uma troca muito bem sucedida com os EUA, conseguindo um esquadro e uma tesoura, em troca de alguns recursos naturais. Contando com a tecnologia da "gambiarra", apontamos o lápis com a tesoura e começamos a produção. Em tempo recorde, já tinhamos descoberto a melhor maneira de processar o material bruto, que vinha a ser a forma mais chata de todas, pois precisávamos cortar 40 triangulos pequenos de uma folha.

Foi interessante ver as negociações que rolaram (de forma legal e transparente). Cuba, Iraque, Inglaterra e EUA dialogaram de maneira cordial e fizeram trocas. A Bolívia se tornava uma potência econômica. Os EUA não atacavam ninguém e perdiam terreno para nós. Era surreal.

Mas, no fim, como só tinha psicólogo lá, e psicólogo é tudo fresco, todos os países do jogo entraram em acordo, e dividiram os recursos tecnológicos e naturais de forma justa, para que empatássemos. A professora que supervisionava o jogo ficou impressionada com isto, apesar de, na hora de avaliar a qualidade dos produtos, ela sacanear todo o mundo (bem, é literalmente). Depois que tinhamos entregue nossas mercadorias no BM, começamos a discutir sobre o que o jogo representa, e blahblahblah. Dormi (que constante!).

Saímos a tempo de pegar a janta, que era a mesma porcaria do almoço. Aproveitei o tempo livre antes de voltar para o alojamento e dei uma passada numa lan house ali por perto para checar os e-meios e agradar papai mandando umas notícias. Por causa dessas porcarias de grupos de e-mails, tinha 10 mensagens novas, número que, considerando meu zelo em manter a organização do meu Gmail, é bem alto. Mas estava certo de que o volume de porcarias que receberia seria pequeno, pois o pessoal com o dedo mais nervoso para mandar porcaria para estes grupos estava lá em Curitiba, e não teria tempo sequer de pensar em computadores.

De volta para o alojamento, senti-me tremendamente feliz por ter tomado banho de manhã, pois a caixa d'água estava fechada por causa do uso excessivo dos companheiros ali acantonados. Banho, só no outro dia. Como diria uma amiga minha: fudeu, fudeu, fudeu, fudeu. Mas é a vida, gente. A festa do dia (ou devo dizer "noite"?) seria no outro alojamento, no Maria-alguma-coisa, chamado apenas de Maria. Era o alojamento chique, que, ao contrário do Aljazera, tinha água e era limpo. Além de ter espaço, como fomos descobrir ao chegar lá.

Nós de Porto Alegre e redondezas não dispunhamos do nosso ônibus para fazer os translados entre alojamentos e eventos, o que nos deixava dependentes de caronas nos ônibus das outras delegações, e, por causa deles, de taxinhas de transporte. Cada viagem no ônibus dos outros era sempre 2 reais. Como qualquer táxi que pegássemos não cobraria menos que 20 reais para ir do Aljazera até o Maria, era uma barbada. Nós, e todos que iriam para a festa (praticamente todos no alojamento) ficamos esperando pelo ônibus de uma delegação do lado de fora do colégio. Enquanto ele não chegava, a gauchada não negou a raça e o bairrismo, e depois de termos cantado "Amigo Punk" pelo alojamento inteiro, puxamos as clássicas que pelo menos 75% da população gaúcha já teve que fazer uma apresentação dançante na escola com elas ao fundo: "Eu sou do Sul" e o insuperável "Canto Alegretense", além de outras menos conhecidas ou merecedoras de terem seu nome citado neste augusto blog. *ahem*

Ficou claro para nós que, se quiséssemos colocar todos que ali estavam dentro do ônibus para ir para a festa, teríamos que quebrar umas 4 ou 5 leis da física, sem falar nas leis do trânsito. Eramos a segunda leva para a festa, e como o motorista estava faturando uma bela grana por fora, tivemos que nos empilhar dentro daquela lata velha. Eu tive sorte, e consegui sentar espremido no último banco, junto com meu veterano Marcelo. Enquanto eu relembrava todas as indiadas veiculares semelhantes que havia me metido anteriormente, especialmente uma envolvendo uma fiorino cheia de tralhas e machos molhados (fato conhecido como a "Sauna Gay Móvel"), a gauchada mais para a frente continuava a puxar os hits mais-mais baladinhas de verão. Pena que não consegui ouvir, ou cantar junto.

Quando chegamos no Maria, fizeram um censo de quantas pessoas se espremeram juntas no ônibus. 121 pessoas. 121 pessoas de pé, esmagadas umas contra as outras, obrigadas a cheirarem o bódum alheio. Tudo por uma festa. Quando chegamos a festa estava bombando, mas 5 minutos depois, a Polícia Militar atacou e desligou o som. Mas que bom, hein, Andarilho! Festa sem música!

Tudo bem. Por uns 15 minutos ficar dançando ao som de músicas foi divertido o suficiente, pois não estava sozinho, mas depois encheu o saco. Fiquei tão de saco cheio que me dispus a ir numa reunião (REUNIÃO NO MEIO DE UMA FESTA!) onde uma baiana ficou reclamando sobre um PM ter feito baculejo em duas meninas. A primeira coisa que eu pensei que "baculejo" significasse era surra seguida de estupro seguido de outra surra, mas depois que perguntaram que merda era um baculejo, ela explicou. Nada de mais, é revista íntima. Só que o PM mandou as gurias levantarem as blusas, passou a mão, e a delegação baiana queria que a organização do evento tomasse providências à respeito. Os caras da organização que tinham quase ido pra cadeia por causa do som alto da festa teriam muito poder e influência sobre a Polícia Militar do Paraná. O-ho-ho. Eu tava realmente cagado pra ir numa reunião destas bem no meio de uma festa. Chata pra caralho, mas festa igual.

Depois que meu estoque de paciência tinha se esgotado por completo, sai daquela reunião. Era hora de ir dormir. O pessoal estava me procurando desesperadamente, pois precisavam de mais uma pessoa para rachar o táxi. Foi providencial.

Depois de perdermos um táxi por descuido nosso (e por causa de um motorista filho da puta), fomos, nós 5, de volta para o alojamento. Para variar, fiquei no meio do assento traseiro. Justamente eu. Bem, era mais confortável do que o ônibus. O taxista estava meio perdido naquele bairro, por que, bem, o bairro onde nosso alojamento estava era um lugar perdido no mapa, e tivemos que dar as direções. Nada de mais. A corrida foi 15 pila.

Bem, até dá para falar um pouco mais da enrolação antes de dormir, mas tirando a minha odisséia atrás de água para escovar os dentes, nada de muito interessante aconteceu.

Até a próxima gente! Beijomeliga!

terça-feira, 24 de julho de 2007

Aloprando em Curitiba (Parte 2)

Dia I: A Viagem (de ônibus) de Ida

ENEP: Encontro Nacional dos Estudantes de Psicologia. Muito ouvi os bisavóteranos (veteranos dos veteranos dos nossos veteranos) falarem desse encontro. Tanto ouvi que decidi ir também.

O encontro originalmente duraria 7 dias, comeriamos no RU e ficariamos alojados em salas da Universidade Federal do Paraná, a UFPR, universidade que não tem uma pronúncia tão divertida quanto o URGS da UFRGS , mas é bem bacana também. Eu disse que "originalmente" seriam 7 dias, certo? Pois bem, não foi sem motivo, pois por causa da greve dos funcionários da universidade e pela falta de planejamento dos psicos da UFPR (que apoiam a greve), perdemos o rango e teríamos que ficar alojados em algum outro lugar em Curitiba. Para coroar tudo isso, o encontro acabou encurtando para 5 dias. Apesar dos pesares, ninguém desistiu por causa disso (já por outros motivos... bem, não vale a pena comentar).

O credenciamento no evento seria terça-feira de manhã, e como a viagem até lá dura mais ou menos 12 horas, sairíamos de Porto Alegre, da frente do nosso amado Instituto de Psicologia, na segunda-feira de noite, para chegar lá pelas 8 da manhã. No nosso ônibus, além do pessoal da UFRGS, iriam 3 pessoas da PUCRS, 2 da Unisinos e uma guerreira da Universidade de Passo Fundo (UPF).

Viagem de ônibus de ida é sempre uma farra. Ninguém dorme: todo mundo fica cantando, gritando ou falando merda quase que o tempo inteiro. Sem falar que compraram 3 garrafões de vinho para a ida. Não preciso dizer que os buracos da estrada e o porre da gurizada contribuíram para que as poltronas fossem tingidas de roxo. Fiquei bastante tempo conversando também, mas como ninguém é de ferro, dormi também. Incrível como ouvir música, qualquer uma, qualquer tipo, tem um efeito sonífero nessas horas. Eu não queria dormir, mas acabava de qualquer jeito, só para acordar meia hora mais tarde e ver que já tinham se passado 20 faixas. O único acontecimento digno de nota, além do fato que eu não me manchei de vinho barato (lembrem-se crianças, quanto mais vagabundo o vinho mais fodida é a mancha na camisa do bebum), foi nossa parada para lanchar em Torres. O paradouro estava cheio de uruguaios, e era um espetáculo interessante ver meu colega Gabriel xingando o futebol deles em um portunhol pra lá de gaiato.

Chegamos um pouco antes do que o previsto em Curitiba, e descobrimos onde os eventos ocorreriam. Era num colégio municipal na periferia da cidade, o Cecília Meirelles. Entrei na fila (por que não podia faltar uma fila num evento desses) e fiquei conversando com uma guria da Universidade Federal de Goiás, que não vi mais depois disso. No cadastro, colocaram uma pulseirinha amarela no meu pulso, para identificação e permitir que eu entrasse nos alojamentos e festas sem muitas complicações. Estava escrito na pulseirinha o de praxe "ENEP Curitiba PR". OK, normal. O que me preocupou foi que vinha escrito depois "grita LUXO!!!". A primeira coisa que pensei foi "Isso deve ser o que a gente deve gritar quando ver nosso alojamento". Dito e feito. Ficamos no colégio Algacyr Maeder, o mais ginete de todos. Tão ginete que ficou conhecido com "Aljazira" (eu sei, a Al Jazeera é a TV, e a Al Quaeda é a rede terrorista, mas para fins humorísticos dá tudo na mesma). Lá, quem mandou foi Murphy e sua lei, pois tudo que poderia ter dado errado deu errado, e da pior forma possível.

A primeira coisa que deu errado foi a comida. A organização do evento tinha feito uma parceria com um restaurante que mandaria quentinhas para a sede dos eventos, e para que pudessemos nos deliciar com suas iguarias, tinhamos que comprar tickets de café da manhã, almoço e janta. Tudo à preço de custo. Como nos falaram que não havia nenhum restaurante, bar, bodega ou buraco pra gente comer torrada (misto quente, perdão), nos obrigamos a comprar os tais tickets, para quarta, sexta e sábado (um churrascão tinha sido programado para quinta-feira). Lograr o pessoal da organização era uma barbada. Aliás, não era necessário nem se esforçar, por que todo mundo da excursão de Porto Alegre que comprou os benditos tickets ganhou vááários a mais. Devolvemos o que não pagamos, claro, mas já ali dava pra prever que a coisa não daria certo.


Fomos para o alojamento. Pegamos uma sala de aula que, apesar de meio isolada, era bem confortável, pelo menos para nossos padrões chinelões. O problema é que ela estava cheia de cadeiras e mesas, que comiam metade do nosso espaço útil. Como aparecia gente de tudo que era lugar para dormir ali no Algacyr, precisavamos fabricar espaço. Empilhamos as porcarias no corredor. Ficou uma obra de arte, digna de Picasso, tão linda que me obriguei a tirar uma foto daquela montanha de pau e ferro. Agora, fico pensando nos funcionários daquela escola, que vão ter que desempilhar e colocar tudo no lugar. Fico com pena. Mas na hora eu só me preocupava como e onde eu dormiria. Dessa vez não fui tapado como no último encontro que fui (levei uma coberta. E só), e trazia comigo meu saco de dormir, o isolante térmico e um colchonete pra não ficar no chão duro. Também tinha uma barraca iglu, mas o espaço era pouco e não precisava montar nada.

Depois que estava tudo organizado (amontoado na sala), começamos a sonhar com comida. E para variar, tinha um restaurante ali perto, o Tempero Verde. Bifê livre, com direito a uma carne e suco liberado, tudo por 5 pila. Pensando logicamente, se havia um restaurante barato assim por perto, com certeza encontrariamos outros, o que significa que não precisavamos ter comprado tantos tickets com a organização do evento. Se não foi traição, foi burrada da organização, que nem ao menos se dignou em procurar lugares próximos para rangar. Posso dizer que os estabelecimentos próximos do evento num raio de 2 km teve muito lucro com a gente, especialmente se vendessem cerveja.

Para ir de um alojamento ao outro, não podiamos contar com nosso ônibus, pois o translado não estava incluído no pacote: era pegar busão de linha ou ir a pé até o Aljazira. Como eu não nego a minha criação na Gringolândia, sempre que possível ia de expresso canelinha, mas a primeira vez que me desloquei do alojamento até a sede me dispus a pagar R$ 1,90 de passagem. Aproveitando para conhecer o local também, comprei uma latinha de Nestea de tangerina, sabor que nunca vi, nem em Caxias, nem em Porto Alegre.

Ocorreria à noite uma plenária inicial, que determinaria algumas regras, como o regimento interno de todas as plenárias que ocorreriam durante o encontro, e, a parte mais importante, quantos eventos os participantes teriam que participar para terem direito de votar nas plenárias e ganhar o certificado de participação. Depois desta plenária, ocorreria a mesa-redonda inaugural, e, pra finalizar, um luau no Algacyr. A bebida era por conta de cada um, inclusive os "litros de sensualidade" (teve gente que realmente esbanjou os seus litros, mas isso não vem ao caso no momento). Um pouco antes de entrarmos para a tal plenária, descobrimos que a naba dos tickets era ainda maior do que poderíamos imaginar. Como eles eram feitos de forma bem... digamos, artesanal (xerocado e cortado com tesoura), era muito fácil fazer algumas versões piratas. E um grupo de malandros fez isso, e tirou xerox de várias páginas de tickets. O único anteparo de segurança que os caras da UFPR tinham pensado, um carimbo atrás de cada ticket, se provou inútil, pois pegaram o carimbo emprestado. Então, como forma de conter o prejuízo, (des)organizaram uma lista com os nomes de quem havia pago suas refeições. Claro, isso não impediria os falsificadores de aparecerem com a maior cara-de-pau do mundo e colocarem seus nomes na lista, mas pelo menos o problema de pirataria estava resolvido.

A plenária foi uma gigantesca piada. Só consigo achar graça daquele negócio mal ajambrado. Qualquer um poderia entrar a qualquer hora e votar, mesmo sem ter ouvido todas as propostas na íntegra, ou mesmo sem ter ouvido porra nenhuma. Por causa disso, aprovaram, por contraste visual, que não era necessário participar de nenhum evento do encontro para ganhar o certificado. Como alguém disse de arreganho depois, era ganhar um certificado de 50 horas de festa. Levando-se em conta que, nos currículos mais recentes dos cursos de graduação em Psicologia do Brasil, atividades extracurriculares como congressos, encontros e cursos valem como créditos complementares, foi um baita presente para os vagabundos de plantão. Outra parte engraçada foram as gurias que sentaram atrás de nós na tenda onde a plenária estava ocorrendo. O jeito como elas falavam ("Democracia demais sempre dá em merda, meu querido!"), se vestiam e gesticulavam simplesmente gritavam "PATRICINHA NO PEDAÇO!" O Marcelo, meu veterano, me cutucou e falou "Aposta quanto que elas são de uma particular?". Bem, elas eram da Universidade Federal de Santa Maria. Foi um belo chute, em todo caso. Lá pelas 7 horas, foi posto em votação se a plenária deveria ser interrompida para a janta ou se deveriamos seguir adiante com ela. Transcrevo, da maneira mais exata possível, a votação:

Mesa - Quem é a favor de que a plenária seja interrompida por 30 minutos para janta
*Poucos levantam o braço*
Mesa - Quem é a favor de que a plenária siga sem interrupções?
*Grande maioria levanta o braço*
Mesa - A plenária seguirá sem interrupções. Porém, a mesa está com dificuldades técnicas e pede um intervalo de 30 minutos para resolvê-los.

Quem precisa de humoristas com gente assim por perto? Fomos jantar mesmo, e como a organização não nos garantia alimentação no primeiro dia, tinhamos que nos virar na janta também. Descobrimos outro barzinho, perto do Cecília Meirelles (a sede, lembram?), o Alecrim, mas conhecido como Bar do Alemão. O xis dele é bem gostoso, e vale os três reais investidos, apesar do tamanho diminuto para os padrões caxienses. Aprovei o suco que ele faz lá também.

Depois do final da plenária, ocorreu, com atraso, a mesa-redonda de abertura. Para variar, cheguei atrasado. Mas não faz muita diferença, por que não lembro de quase nada do que o convidado falou. Só lembro que ele a-d-o-r-a Michel Foucalt. Não é uma grife de roupas, mas um escritor francês. No fim das contas dá no mesmo.

A plenária terminou meio que aos pontapés, já que a escola tinha que fechar às 22:30. Antes de sairmos em direção ao Algacyr para chegar a tempo no luau, demos uma espiada nos eventos do dia seguinte, e, para nossa felicidade, descobrimos que nossa heroína maior, Suely Rolnik, iria participar de uma mesa-redonda. Foi uma hemorragia de prazer descobrir isso.

Fomos a pé mesmo. Junto com nós da UFRGS, havia todo um pessoal de outras universidades que iria para o luau. Eles foram direto para o alojamento, enquanto nós ficamos dando voltas pelo bairro, procurando botecos abertos e clamando "Cerveja! Cerveja! Cerveja!". Encontramos uma padaria aberta. Aproveitei e comprei uma torta e um suco. De lá, fomos para um outro bareco, que vendia vinho e cerveja. Lá, ficamos assistindo os vídeos do acidente da TAM, que havia recém acontecido.

Demoramos bastante para chegarmos no alojamento. Não que estivessemos perdidos (perdido em fico em Porto Alegre sozinho, não em Curitiba junto de uma galera), mas iamos parando de bar em bar, procurando por bebida. Cheganno no Aljazira, já dava para ver que o luau estava foda. Não tinhamos dado 10 passos dentro da escola e já tinha um japa chamando o hugo no gramadinho, e logo atrás dele, um bando de marmanjos gritando "Eu quero passar mal!". Devem ter enchido a cara com Keep Cooler e Smirnoff Ice as moças, mas enfim! Fomos para nosso quarto, onde uma animada roda de violão acontecia. Eu estava meio cansado, e queria me deitar. O Chico perguntou se eu não queria me deitar no colchão dele, pois ele iria dar uma saída. O Chico é um cara injustiçado: dizem que ele é chato, mas no fim ele é um paizão. Bem, eu tinha meu próprio colchonete, recusei e agradeci. Pois é, este foi um dos meus atos que mais influenciou o rumo das coisas.

Lembram que eu falei que algumas pessoas esbanjaram seus litros de sensualidade? Pois é, alguns minutos depois do Chico ter saído, um casal indistindo, na maior agarração, aparece na sala, e se joga em uma cama localizada no canto. É gente, era a cama do Chico. Todos ficaram olhando aquela cena, sem entender muito além de que era uma baita putaria. De repente, alguém puxa uma musiquinha "Chico, cadê você? Estão transando, na sua cama". Foi o delírio da torcida. Cada vez aparecia mais gente para cantar junto, até que o Chico, invocado, aparece e arranca as cobertas que cobriam os pombinhos (bêbados, por sinal). Fico pensando agora: se eu tivesse me deitado na cama do Chico, teriam transado na minha cama? Ou em cima de mim mesmo? Nunca saberemos, e isso é muito bom.

Ainda essa semana posto o Dia II, mas acho que vai demorar mais do que este post pra sair (a memória não colabora).

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Aloprando em Curitiba (Parte 1)

Pessoal, voltei ontem de Curitiba, onde estava acontecendo o XX ENEP - Encontro Nacional dos Estudantes de Psicologia. Foi uma semana como a do vestibular: cheia de pretextos sérios para fazer festa. Por isso, e por não postar com a freqüencia que costumava (ou desejava), escreverei uma nova série de posts sobre minhas aloprações na capital paranaense ao longo dessa semana.

Aguardem
Beijomeliga

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Relatos de um Calouro no Movimento Estudantil da UFRGS

Acho que faz uma semana desde que li a respeito da invasão da reitoria da USP pelos seus estudantes. Sentindo o cheiro da "pólvora no ar", ou em outras palavras, a eletrecidade na atmosfera acadêmica, me flagrei pensando "tomara que arrebente uma merda parecida aqui na UFRGS, pra que eu possa invadir a reitoria também!"

No dia 5 de junho de 2007, aproximadamente às 9 horas da manhã, estava caminhando pelo Campus do Centro, procurando um computador que não estivesse Orkut bloqueado (era pra coisa útil, gente, eu juro). Caminhar pelo Campus do Centro é uma experiência maravilhosa para mim, que vivo no Campus Saúde. Meu campus, se é que posso chamá-lo assim, é tudo, menos um campus universitário. É um amontoado de prédios da UFRGS, que calham de estarem fisicamente próximos uns dos outros. Mas não há nenhum tipo de interação real entre os cursos: estudantes de Farmácia ficam na Faculdade de Farmácia, estudantes de Psicologia ficam no Instituto de Psicologia, separados por grades e preconceitos. No Campus Centro ocorre justamente o contrário: todos estão juntos de todos, caminhando por entre os prédios históricos, jogando truco no Bar do Antônio, interagindo.

O Campus do Centro é sede de vários cursos, mas o principal deles não é contado como tal: o curso de Movimentação Política.

Durante minhas andanças, acabei passando na frente da Faculdade de Educação, onde havia um aglomerado de pessoas em torno de alguém com um megafone. Eu sabia o que era, pois tinha recebido um panfleto sobre um ato público naquele local ainda noutro dia. A curiosidade me levou até lá, para tentar escutar o que diziam. Me arrependi. Tudo o que ouvi foram gritos de guerra batidos, como "Cotas na UFRGS Já!" "Pela universidade pública popular de qualidade", e um punhado de outras abobrinhas que, de tão irritantes, fiz questão de não conseguir lembrar. Fui para a livraria da universidade, que estava vendendo livros por 6,50. Fiquei lá por pelo menos trinta minutos, olhando para as capas dos livros mais interessantes. Nem passava pela minha cabeça que eu estava apenas 400 metros de uma importante manifestação.

Foi depois de uma aula particularmente chata que fiquei sabendo que a reitoria da UFRGS tinha sido ocupada por estudantes em protesto. A primeira coisa que passou pela minha mente não foi aquela imagem romântica dos estudantes, lutando por um mundo melhor, invadindo a sala do reitor opressor e clamando por melhoras. Na hora, pensei "Virou modinha essa história de invadir reitoria agora, porra?!?!" Mas, mais uma vez, o cheiro de pólvora no ar era intoxicante, e meu lado racional lutava contra o desejo de ir lá acampar no saguão.

Decidi ver por que estes estudantes protestavam de forma tão veemente, e li outro panfleto, que me entregaram naquele mesmo dia, com muito mais atenção do que li o outro. Está escrito:

Pauta de Reivindicações:
1) Apoio à ocupação da Reitoria da USP;
2) Contra a Reforma Universitária;
3) Redução da taxa do vestibular e ampliação das isenções totais;
4) RU na ESEF já!;
5) Ampliação do RU do Vale;
6) Garantia definitiva dos espaços estudantis. Ninguém toca na TOCA, no CECS, no CEABi e no DACOM;
7) Novo prédio do Instituto de Artes;
8) Ações afirmativas na UFRGS. Onde está a diversidade na universidade?

Já falei como senti-me a primeira vez que li sobre os estudantes na reitoria da USP, e entendo a importância das reivindicações número 4, 5 e 6, pois o que seria de mim sem o nosso amado almoço de 1,30 e o sofá do Diretório Acadêmico? Provavelmente um indivíduo mais estudioso, mas profundamente entediado e infeliz. Também entendo a importância de mudar o prédio das Artes para um lugar mais seguro, pois na última festa que fui lá, uma colega minha quase foi atingida por um braço de gesso na cabeça e o elevador de lá é quase um instrumento de tortura psicológica, e sou compreensivo quanto ao fato de muitos acharem que 95 reais de taxa de inscrição um tanto salgado, mas fiquei intrigado com essas coisas de "Reforma Universitária" e "Ações Afirmativas". O que seriam?

A primeira pergunta foi respondida à noite, durante nossa reunião do DAP, por um convidado que fez parte do DCE-UFRGS, mas que acabou saíndo por divergências ideológicas. Segundo ele, que também acabou saíndo do PSTU por divergências ideológicas (esquerdista demais?), a Reforma Universitária é um projeto do Banco Mundial para privatizar o ensino superior público. Como eu não li, ainda, o projeto de lei da Reforma, fico por isso mesmo, apesar de achar um tanto quanto inverossímil esta explicação. A segunda resposta só me foi dada no dia seguinte. Segundo minha fonte, que considero confiável, ações afirmativas são atitudes que as universidades tomam para aumentar a inclusão social de grupos menos favorecidos, como pobres e negros. E negros pobres. Estava pensando seriamente em ir ocupar a reitoria também, fazer um pouco de turismo por aí, mas me lembrei que tinha trabalho para fazer. Iria para lá se o local continuasse ocupado até quarta-feira.

Dito e feito, quarta-feira dia 6, às 18:30, estava eu e meu companheiro de indiadas Bétts na frente da reitoria, para uma assembléia de estudantes que ocorreria naquele local. Ficamos assistindo, com muito entusiasmo, uma apresentação dos estudantes de Artes Dramáticas. Minha alta sensiblidade para as subjetividades artísticas me levaram a refletir que caralho eu estava fazendo naquele lugar assistindo teatro subsubjetivo. Mas logo a assembléia começou, e discutiu-se de cara uma pauta de extrema importância para a humanidade: a posição da caixa de som. Parecia uma piada de mau gosto aqueles caras com ares de importância dizendo "a proposta número 1 é colocar a caixa no meio do saguão. A proposta número 2 é deixar a caixa onde está, em cima do balcão". Mais dois minutos dessa lenga-lenga e eu iria propor pendurar a caixa no teto.

Não sei se foi só impressão minha, mas os caras do DCE pareciam estar servindo algum interesse que não do movimento estudantil (já falei que eles são filiados ao P-SOL?). Diziam que a assembléia seria democrática, mas também diziam que só alguns poderiam falar (quem era do DCE) por questões de "praticidade". Claro que esta história não colou, e todos que quisessem poderiam, desde que se inscrevessem antes, falar no microfone por até 1 minuto.

Na teoria isso deveria funcionar, mas na prática a coisa foi bem diferente. Tive a ligeira impressão de que o relógio corria mais devagar para quem ia lá na frente falar "Esta ocupação foi uma grande vitória, um marco na história do movimento estudantil", do que quem ia se opor às posições do DCE. E o Guardião do Tempo, o Cara que ficava controlando o tempo, fazia questão de a cada 15 segundos dizer para estas pessoas que o tempo estava acabando. Há boatos que o fio do microfone encolhia magicamente quando alguém deste segundo grupo ia falar. Também fiquei com a impressão de que o chefe do DCE estava na fase da fixação oral que Freud falava, pois ele só largava o microfone a cara e custo. E quando largava fazia beicinho (tá, não fazia, mas bem que gostaria de fazer).

Segundo o DCE, todas as reivindicações que citei acima, menos as de número 1 e 2, foram aceitas pelo reitor, graças à ocupação: a taxa do vestibular será cortada pela metade e as isenções totais serão ampliadas já no próximo concurso, os RUs da ESEF e do Vale ficarão prontos até o final do ano, os espaços estudantis estão garantidos e o Instituto de Artes será movido para o antigo prédio da Faculdade de Medicina no Centro. Inacreditável! Uma guria da História que estava sentada do meu lado no chão do saguão fez uma observação muito interessante, que era muito improvável que uma ocupação de um dia conseguisse mudar as idéias do reitor tão rapidamente. Fiz alguns cálculos mentais e cheguei a seguinte conclusão: 400 estudantes na UFRGS, ocupando a reitoria por um dia, conseguiram muito mais concessões do que 1500 estudantes da USP, que ocupam a reitoria deles há mais de 35 dias. Eu esqueci de falar antes, mas o RU da ESEF é uma reclamação antiga dos estudantes, e a manutenção dos espaços estudantis ainda mais, especialmente no caso da Toca. É realmente significativo que o reitor tenha cedido em tantos pontos nevrálgicos. Provavelmente, os projetos já estavam engatilhados, mas agora foi a hora perfeita para o DCE anunciá-los como conquistas do movimento estudantil.

No fim da assembléia, foi decidido que a ocupação já tinha sido vitoriosa, e, para não por as recentes conquistas a perder, ela deveria ser encerrada. Os estudantes sairiam do saguão da reitoria de cabeça erguida! Vitória! "Ocupar, Ocupar, Resistir pra Estudar!" "Na USP, na UFRGS, quem disse que não viu? Quem disse que tá morto o movimento estudantil!"

Dois colegas meus, um tanto quanto mais velhos do que eu, tanto em idade quanto em vida em universidade, disseram basicamente a mesma coisa: quando você vai nessas manifestações políticas, você tem seus próprios motivos para tanto, seja ideologia, inércia ou vontade de fazer baderna. Mas quem articula estes movimentos também tem motivos próprios, especialmente poder. E, mesmo que você não queira, você acaba servindo de escada para eles. É importante lembrar que praticamente todos os políticos de nossa época começaram nos movimentos estudantil ou sindical.

Desta vez, fui apenas um observador. Talvez, numa próxima manifestação relevante eu seja mais do que isso. Não sei. Mas vi que quem entra nessa brincadeira tem que seguir as regras estabelecidas: coação, fraude, incoerência. Talvez eu entre nesta história para acabar com isso, caçar os marajás. Mas eu não posso me esquecer que o último Caçador de Marajás era o maior de todos os marajás. Talvez eu esteja completamente equivocado quanto as minhas posições. Por enquanto eu não sei responder se fiz escolhas erradas. Me perguntem isso daqui a dois semestres.

Já dizia Nietzsche: "Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você."







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-Dicionário para quem está mais perdido do que peido em bombacha:
*USP - Universidade de São Paulo;
*UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Onde eu estudo atualmente;
*DAP - Diretório Acadêmico de Psicologia. Lugar bacanoso;
*RU - Restaurante Universitário. Local de rango barato;
*ESEF - Escola Superior de Educação Física. Também conhecida como Campus Olímpico;
*Campus do Vale - Campus mais isolado fisicamente. Notório pela alta densidade de usuários de substâncias tóxicas (drogados) e por seus parques temáticos (fumódromo). Também conhecido como "A Selva";
*Toca - Lugar todo especial onde os estudantes de Letras e História vão para cheirar maconha e fumar cocaína;
*CECS - Centro Estudantil de Ciências Sociais (presumo eu);
*CEABi - Centro Estudantil da Arquivologia e Biblioteconomia. Só descobri que essa birosca existia ontem;
*DACOM - Diretório Acadêmico da Comunicação. Tem uma mesa de sinuca supimpa lá;
*DCE - Diretório Central Estudantil. Se você procurar no Google, vai aparecer "Você quis dizer: Máfia"

domingo, 29 de abril de 2007

Um breve resumo da minha longa e rica carreira militar (Parte 2)

Estou em Caxias. Banhado pelo sol morno de abril, enrolado em minhas cobertas e tomando um delicioso café, eu penso "Senhor, obrigado por eu não ser soldado do Exército este ano!"

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Aventuras Venturosas de um Vestibulando Vagabundo (Parte 6)

-10 de janeiro de 2007
Ou
Aquele da Passagem de Ônibus

Foi realmente um presente dos deuses que o último dia de vestibular fosse História, Literatura e Inglês. Dava até a impressão de que as provas haviam acabado na terça-feira, e que a quarta seria só um passeio. Passeio importante, como aqueles do tempo de escola que exigiam relatório valendo uma caceta de nota. Mas passeio é passeio: sempre divertido!

Fui tranqüilo e sereno para o colégio Glória (de táxi, claro), e mais uma vez, enquanto esperava darem a largada para a corrida do Vestibular pra ver quem senta primeiro nas classes, fiquei olhando o povo ao meu redor. Incrível como tem gente que estuda na frente do local de prova com aqueles jornalecos que o cursinho Objetivo distribui. Não são ruins, devo admitir: arrependi-me de não ter dado uma lida mais profunda na edição número 3 (matemática e física).

Como sempre fiz desde o dia 8, fiquei enrolando no corredor, esperando às 8:29 para só então entrar na sala. Fui ao banheiro, olhei as pinturas de Jesus (no corredor, claro. Não gostaria de ficar encarando o Cristo enquanto fazia o número 2), ajudei uma guria a catar a papelada que escorregou para o chão. “Bacana ela” pensei com meus botões, “pena que é concorrente, e eu vou tirar a vaga dela”.

Só depois de muito vagar, dei as caras na minha querida sala 123. Foi o único dia que me arrependi de ter chegado mais tarde, pois minha vaga de sempre tinha sido ocupada. Deveria ter colocado um cartaz na cadeira, com os dizeres “Reservado para a bunda do Samuel”. Azar. Sentei no meio da sala, longe de qualquer parede para me escorar, o que é uma merda. A gótica estava, como sempre, na sua janela no canto, inatingível, desta vez toda de preto, na sua coloração natural. Há quem diga que góticas não gostem apenas de roupas pretas, mas vermelhas e roxas também. Pessoalmente acredito que estas cores apareçam apenas na época de muda, ou são determinados por genes recessivos, como o albinismo. Também existem góticas albinas, isto é, que vestem blusas e vestidos brancos, mas estas são chamadas de “Mães-de-santo” (prometo que esta foi a última vez que faço esta piada).

A prova não foi um passeio agradável como eu imaginei que fosse, mas ainda assim foi o melhor dia de todos, tanto que pela primeira vez de todas as vezes que fiz vestibular, saí logo após o tempo mínimo de permanência, no caso, 2 horas. Esta saída antecipada garantiu-me o privilégio de ver em primeira mão um efeito sociológico interessantíssimo: os pais acampados na frente do colégio, com cadeiras de praia e chimarrão, esperando os filhotes terminarem a prova. Naquele momento dei graças ao Senhor pelos meus pais terem voltado para Caxias: tudo o que eu mais gostaria de ter que responder depois de sair de uma prova é “E aí? Como é que foi?” para eles. Parece que vai fazer alguma diferença se eu disser alguma coisa.

O dia seria bem diferente dos outros, a começar pelo fato que as pré-provas acabaram. Ao invés disto, teríamos a Festa das Tintas, “Um no-jo, mas vocês a-do-ram!” como diria o Riggo. Sem falar que teríamos que pegar nosso ônibus às 20 horas.

Comprei uma camisa e uma bermuda bem vagabundas, já que era para sujar com tinta, e fui para a sede do Mauá. A festa começaria às 15 horas, mas isso fica só no plano teórico. Começou às 16. Sobre a Festa não há muito o que falar, já que foi só (!) tinta, cerveja e som alto. Foi bem divertido ficar jogando tinta diluída em água nos outros. Aquela camisa que comprei era branca. Agora é verde. E aqueles óculos escuros do Tio Riggo não enganavam ninguém (ervas medicinais foram usadas. Em excesso).

Depois de uma ida ao banheiro para se trocar tumultuada pelo segurança (só duas pessoas podiam usar o banheiro ao mesmo tempo. Vai entender), fui para casa tomar meu banho, pegar minhas tralhas e ir pra rodoviária. Foi aí que começou a farra.

Cheguei, bem feliz, já pensando no chuveiro, quando descubro uma coisa muito pouco agradável: na passagem de ônibus, o horário escrito era 19:00, e não 20:00, como eu pensava. E já eram 19:20. Liguei para a Bárbara e falei sobre o ocorrido. Ela ficou realmente estressada. “EU VOU CONSEGUIR ENTRAR NAQUELE ÔNIBUS ÀS OITO HORAS E EU NÃO QUERO SABER SE ARODOVIÁRIA FEZ ERRADO! EU VOU RODAR A BAIANA!” foi mais ou menos o que ela disse no telefone, enquanto eu dizia, em vão, para termos calma. Em todo caso, chegamos a um consenso, e iríamos todos para a rodoviária antes das oito horas. Alguns minutos depois, a Bábi ligou novamente, e disse que, se quiséssemos acertar as nossas passagens, teríamos que nos dirigir ao guichê 15, e falar com... com... com uma mulher de nome muito estranho.

Depois de um banho extremamente longo (10 minutos) para tirar a tinta dos cabelos, chamei um táxi e fui para a rodoviária. No guichê 15, tive o seguinte diálogo:

-Oi, me venderam uma passagem com o horário errado, deveria ser para às oito horas, não às sete, e me disseram que eu deveria falar contigo pra conseguir uma nova.
-Não posso fazer nada por você. Essa passagem era para o sábado passado.
-Obrigado.


A primeira coisa que fiz depois desta conversa animadora foi ir direto para um cesto de lixo e jogar a passagem fora, e a segunda foi ficar olhando os táxis que chegavam, para ver se os outros vinham ou não.

Não demorou muito, e Vanessa, o Tio Mauri, a Morgana e a Bábi chegaram, as duas últimas com vontade de tocar fogo no circo (no sentido figurado) e na rodoviária inteira (no sentido verdadeiro). Não estava interessado em perder tempo, por isso fui logo contando a boa nova, que não só o horário de nossas passagens estava incorreto, mas também a data! Agora sim, aquele colóquio do dia 6 faz sentido. E neste mesmo colóquio, faltaram duas linhas, as seguintes:

-Opa! A data e o horário tão errados! Troca aí, moça.
-OK.

Sabe por que faltaram essas duas linhas? Por que não conferimos porra nenhuma. Eu considerava isto nossa própria responsabilidade, e não me oporia a pagar mais 25 reais de passagem, mas eu e a Bábi não compartilhávamos a mesma opinião. Ela e a Morgana decidiram que iriam ao menos conseguir ressarcimento pelas passagens terem sido vendidas com a data e horário torto. Fui até a lixeira e peguei de volta minha passagem, que ainda não tinha sido coberta por papel de picolé e resto de chimarrão.

No Guichê 15, a conversa foi bem animada: já saíram reclamando da passagem errada, pediram para entrar no ônibus das oito ou dinheiro de volta, e rolou até a clássica “Eu quero falar com o seu supervisor!”. O problema foi que ela era a supervisora. Daí não há condições de por ela contra a parede. Em todo caso, ela disse que não era problema dela, da rodoviária, mas da empresa de ônibus, a Caxiense. Saímos correndo até a sala da compania para reclamarmos, e de lá, para o bloco 3, onde se efetuam as saídas para Caxias.

A Bábi encontrou o motorista do ônibus e falou do nosso problema. O motorista, muito solícito, pra não dizer “filho da puta indiferente” ou coisa pior, disse que o problema não era da Caxiense, mas da rodoviária, e também disse que eram só mais 25 reais para comprar uma passagem nova, para às nove. “Ótimo” pensei “agora é correr de novo pro guichê 15 e encher os pacová daquela mulher de novo”. Mas não foi o que aconteceu. A Bábi grudou naquele palhaço como um carrapato, e disse que nós não tínhamos mais dinheiro. Meu lado que nunca mente ia dizer que isto era mentira, mas meu lado mais ladino deixou por isso mesmo, pois até meu lado que nunca mente é pão duro, e minha carência afetiva não iria deixar uma nota de 20 e um 5 me deixarem para todo o sempre.

O desgraçado do motorista era osso duro de roer, e só parava rindo da nossa cara. Eu não tinha muitas esperanças de usar minha passagem para algo mais útil do que assoar meu nariz. Mas a Bábi mostrou a que veio, e seguiu ele por todos os lugares que ele ia. Ela conseguiu colocar ele contra a parede quando conseguiu fazer com que ele dissesse o próprio nome e sobrenome. Pronto! Se ele não nos deixasse entrar, era só ligar pra ouvidoria da Caxiense e reclamar daquele Fulano. Ela devia fazer Direito, essa guria. Seria uma advogada tão boa que conseguiria convencer todo mundo que o Fernandinho Beira-Mar é gente boa.

Eu nem me lembro do nome dele, o que prova que não tivemos que tomar medida tão drástica. Às 19:55, ele cedeu e deixou que entrássemos no ônibus, desde que houvesse lugares. Saímos correndo para chamar os outros, que ficaram esperando perto dos guichês com as bagagens. Saí correndo pro lado errado (digo isto por que muitas pessoas reclamaram que não me perdi no dia 9, e elas estranhariam se o mesmo ocorresse no dia 10).

Com as nossas bagagens e bundas já no ônibus, relaxamos, sentados do ladinho do banheiro do busão. Depois de tanta farra, aventura, prova e farra, passei a ver minha vida por um outro ângulo, e adotei uma nova filosofia de vida: tenha sempre um mapa à mão.



E este foi o último post das “Aventuras Venturosas de um Vestibulando Vagabundo”. Não haverá reprise ano que vem, pois eu passei nesta droga de concurso.

Publicado por: Editora R&A, todos os direitos autorais reservados, inclusive o de se perder no Centro de Porto Alegre.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Aventuras Venturosas de um Vestibulando Vagabundo (Parte 5)

-9 de janeiro de 2007

Tenho 18 anos, 12 dos quais passei estudando em diversas escolas: 8 anos de Ensino Fundamental, 3 de Ensino Médio, 6 meses como intercambista e mais 6 de intensivo pré-vestibular. 12 anos. E nesses 12 anos eu não aprendi nada, absolutamente nada de Física! E nesta terça-feira ensolarada, no momento que acordei imediatamente me lembrei deste pequeno detalhe, e que em algumas horas eu teria que fazer uma prova de Física, que eu precisava ir bem para poder entrar na Universidade Federal! “Fodido, você está” diria o Mestre Yoda.

Porém, por menos que eu soubesse, ainda teria que fazer a droga da prova. “É só peso 1, não vai mudar grande coisa na média harmônica” disse uma voz em minha cabeça no caminho para o local de prova, “é só ficar uma ou duas questões acima da média” disse outra. Uma terceira voz falou “Vamos! Pense nas aulas de física do tempo de escola! Você tem que se lembrar de alguma coisa!” Imediatamente após esta voz ter se pronunciado, fiquei relembrando as aulas que tive nos últimos três anos, e tudo que consegui lembrar foram minhas sonecas durante as explicações, da minha admiração pela rua dos18 do Forte ao invés de fazer os exercícios e de uma certa invasão à casa das freiras de São José bem no meio de uma aula de Física.

É... eu não fazia bosta nenhuma na escola, e só naquela hora crítica me dei conta de que invadir conventos não cai bem no currículo, e muito menos ajuda na hora do vestibular. Mas o tempo não volta, e se voltasse, provavelmente eu tentaria descobrir o que as freiras escondem atrás daquela porta no fundo do auditório ao invés de estudar mais, o que não teria adiantado nada de qualquer maneira (talvez servisse para anatomia, pois deve ter um monte de criancinhas mortas). Era tarde demais.

Eis que vejo uma luz no fim do túnel: meu professor de física do Mauá, Dideron. Fui bater um papo com ele, ver se ele conseguiria salvar minha vida. Para não parecer desesperado, comecei perguntando coisas simplórias, como por que ele estava ali no Colégio Glória quando quase todos os professores estavam no Colégio Bom Conselho (tudo por causa da Medicina, esse curso supervalorizado a troco de nada). “Vim trazer minha filha aqui” disse ele. “Ótimo!” pensei eu “uma concorrente que com certeza sabe física!”. Devia ter perguntado alguma outra coisa. Bem, feita a parte social da coisa, resolvi ser direto, e pedir algo de ordem prática: “Quantas questões eu preciso acertar pra passar no vestibular?” Depois de alguns cálculos levando em consideração a possível média da prova e o provável desvio padrão, Dideron chegou à conclusão de que 12 acertos seria uma boa média, mas só para ficar tranqüilo mesmo, era melhor acertar 14. “Ah, tá” falei, mas pensava “como se fosse escolha minha isso”.

Abriram-se os portões! Como sempre, a pressa dos meus concorrentes para chegarem às salas de prova era algo impressionantemente estúpido, pois é como não querer se atrasar para a própria execução. Eu pelo menos estava neste espírito de desespero. Pelo menos eu ainda poderia procrastinar nos corredores. Procrastinar. Adoro essa palavra. Parece que significa algum tipo de pecado capital, um crime imperdoável, mas no fim significa apenas “enrolar”. Bem, pelo menos, para enrolar nos corredores, o fato de que o banheiro masculino era extremamente mal posicionado veio a calhar, já que me obrigava a caminhar bem mais.

Quase no final do meu tempo de vadiagem malemolente do vestibular, como diria o Jacaré Banguela, entrei na minha sala. Lá estava a gótica, novamente de preto. Acho que a cor vermelha era apenas uma fase intermediária na muda da pele dela, naturalmente preta. Góticos são black, e qualquer coisa diferente é fora do natural.

Começou a prova. Li a primeira página, a segunda, a terceira... todas, até o fim, e cheguei a conclusão de que não tinha a menor idéia de por onde começar. Pensei em rasgar o caderno de exercícios e socar as folhas goela abaixo de qualquer fiscal que aparecesse pela frente, para depois sair gritando pedindo ajuda ao Divino Deus.

FATO CURIOSO: No regulamento do Vestibular, consta que, se algum vestibulando agredir de qualquer maneira (verbal, psicológica e/ou fisicamente) um fiscal, organizador ou coordenador, ele será imediatamente desclassificado do Concurso. Mas não há nenhuma outra regra equivalente sobre agressões contra outros vestibulandos. Talvez seja assim por que a COPERSE considere um meio válido para entrar na universidade o espancamento dos colegas mais fracos...

Mas logo após estes pensamentos nihilistas passarem por minha mente, minha maior habilidade veio à tona. Alguns dão o nome de “Sangue Frio” para este poder. Eu chamo de “cagar e andar”. 85% dos candidatos a alguma vaga da Federal não tem esta habilidade, e não surpreende que sejam os 85% que rodam. Extremamente calmo, comecei a tentar fazer as questões mais fáceis. Não achei nenhuma que pudesse classificar como “fácil”. Fui para as regulares e então para as difíceis, que pareciam multiplicar-se como coelhos.

Faltando apenas 30 minutos para o final da prova, comecei a chutar, primeiro na prova de física (que eu erroneamente tomava por mais fácil), mas ainda insisti em resolver manualmente as questões de matemática, e calculei, usando apenas papel, caneta e neurônios quanto é 5,01 elevados na quinta potência. Não adiantou para nada e comecei a escolher as alternativas esteticamente mais atraentes para assinalar.

Sai da sala faltando apenas 5 minutos para o fim, e apesar disso, ainda não tive que ficar esperando o último seqüelado terminar a prova. Ótimo. Poderia ir mais cedo para casa (como isto significasse algo à uma da tarde).

Depois de um almoço frio por causa do meu atraso, fiquei fazendo hora (procrastinando novamente) até a hora de ir para a aula Pré-Prova. Desta vez, cheguei bem a tempo de não me atrasar. Era o último dia de pré-prova, e esta tarde a última em Porto Alegre sem ter que se preocupar em pegar o ônibus. Era melhor aproveitar bem.

A aula foi muito interessante: o professor Riggo, de história, provavelmente exagerou na dose de orégano no cigarrinho da tarde, e ficou completamente fora da casinha durante sua explicação (“O nome desse cara faz todo mundo pensar em mim: Che Quevara. É por que eu tenho um tição. Não, eu não vou mostrar pra vocês. Vai rolar no chão até a porta. Eu não quero ter que enrolar depois”. Essa foi só uma das pérolas dele. Vou sentir falta desse cara). Conheci outro professor de história geral, que dá aula apenas em Porto Alegre. As aulas dele devem ser muito interessantes, por que não fazia 5 minutos que ele havia entrado na sala de aula e já tinha metido o dedo do meio na cara de um infeliz na segunda fila, enquanto o Fábio (o OUTRO professor de história geral) escrevia no quadro sobre a Grécia Antiga. Infelizmente, o professor de inglês que nos deu aula foi o de Porto Alegre também, sem o apoio logístico do Martim. Nada surpreendente, já que o Martim nunca aparecia em Caxias para nos dar aula, dando sempre uma desculpa mal-feita, como dor nas costas que sempre se manifestam às 11 da manhã, horário que ele deveria estar no Mauá dando nossa aula, ou que ele passando por Canoas. Nossa turma sempre fazia um bolão quando ele chegava atrasado. Ganhava quem acertava por qual cidade ele estava passeando ao invés de estar trabalhando. Geralmente eu apostava em Erechim, Nova Roma do Sul o São José dos Ausentes, mas tenho a leve impressão de que eu escolhia sempre cidades próximas demais de Caxias. Ou talvez em São José dos Ausentes não haja nenhum aparelho para supino que agüentasse 150 quilos. Não sei, apenas sei que foi uma pena não ter tido a chance de sacaneá-lo mais uma vez a respeito de suas inexplicáveis viagens ou de gritar “THAT’S BULLSHIT” no meio da aula. Que tristeza.

Escalado como sou, fui depois da aula para o quarto do hotel onde o Tio Mauri, a Babi e a Nessa estavam hospedados, bem do lado do elevador, para comer de graça todas as porcarias que eles trouxeram. Tive a impressão que a temperatura ambiente lá era pelo menos dez graus menor do que a natural, talvez por causa dos genes de esquimó da Babi. A cama do Tio Mauri era como um depósito: todas as tralhas iam parar lá, principalmente os papéis de chocolate vazios. Dentro do frigobar tinha um pedaço de melancia e uma garrafa de chá gelado (oba!). Tomei metade do chá gelado, mas não tive tempo de sequer encostar na melancia por que, enquanto reclamávamos dos clipes que passavam na TV (deveria ser proibido por lei produzirem clipes para músicas de reggae. Aliás, deveriam proibir o reggae no Brasil, com direito a surra de toco de bugre para os infratores), por algum motivo que desconheço, estourou uma guerra de travesseiros entre a Babi e o Tio Mauri, sobrando paulada pra mim também. Os olhos da Babi brilhavam com uma intensidade maligna, insana, como se ela quisesse ao invés de acertar-nos com uma almofada, partir-nos ao meio com um machado sujo e enferrujado, para caso não tivéssemos uma morte instantânea, morrêssemos por tétano ou infecção generalizada.

Isto estava realmente nos assustando, mas a fome era ainda pior. Resolvemos dar trégua e jantar fora (do hotel. Fora eu já estava de qualquer forma). O elevador do hotel era realmente divertido de brincar: quando ele balançava demais, parava de descer. Fizemos isso tantas vezes no caminho para o saguão que quando chegamos, ele (o elevador) parou 30 centímetros abaixo do nível do saguão. Reportei ao atendimento que eles precisavam urgentemente chamar a assistência técnica. Só não falei que era por culpa nossa. Passando pela Biblioteca Pública e pela Praça Júlio de Castilhos, fomos tomar um café num shopping com escadas rolantes mal posicionadas (coisa que a Babi não parava de falar). Tirando o preço (salgado) foi perfeito. Depois da janta, paramos no Zaffari do shopping mesmo, pois as gurias queriam comprar energéticos para a prova do dia seguinte. Idéia ruim, se me permitem dizer. A Babi já é hiperativa e desconcentrada em seu estado natural, imagine com 100 ml de cafeína no sangue. Senti pena, mas muita pena dos fiscais da sala dela. Iriam sofrer bastante.

Meia hora de espera na porta do mercado (enrolação pouca é bobagem) e um tombo lindo na escada rolante depois, começamos nosso caminho de volta para o hotel, onde o Róger e a Cris iriam aparecer para jogar cartas. Já eram 9 da noite, e quando passamos na frente de um ponto de táxi, uma batalha interna estourou dentro de mim. Ficaria fazendo festa até altas horas da madrugada e dormia lá no hotel mesmo, ou voltaria para casa para me deitar às nove e meia?

Voltei para casa. Tinha deixado minha caneta lá.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Aventuras Venturosas de um Vestibulando Vagabundo (Parte 4)

- 8 de janeiro de 2007

Segundo dia de prova. Minha cama estava agradavelmente quente e confortável, o que me impediu de sair dela e fazer a prova, fazendo-me perder todo o vestibular.

Tá, isso é mentira, mas confesso que realmente pensei em ficar em casa dormindo. O que me levou a tirar minha bunda do colchão foi o pensamento que, se eu não passasse esse ano, eu teria que repetir a dose de vestibular em 2008. Nada agradável.

Tinha decidido pegar um táxi hoje, e ver se valia a pena gastar mais para não levar roçadas (calma, a viadagem ficou no post anterior), o que me daria muito mais tempo para gastar fazendo coisas que antes eu faria correndo, como tomar café, por exemplo!

O dia 8 de janeiro foi muito mais bonito que o dia 7, só pelo simples fato de não ter que esperar um ônibus lotado, mas apenas escolher um táxi, acomodar-se no banco da frente e dizer “Pro colégio Nossa Senhora da Glória!” Valeu a pena gastar 4 vezes o preço da passagem na corrida só por isso.

Por um erro de cálculo, cheguei muito cedo no local de prova. Ao contrário do que muitos poderiam pensar isto não é uma coisa boa, afinal, eu teria que ser muito mais criativo e paciente para descobrir novas formas de enrolar antes de abrirem os portões. Comecei a jogar pinball no celular, mas a brincadeira perdeu a graça depois da quinta vez que quebrei um recorde.

Enquanto isso, outro oportunista resolveu vender água mineral na frente da escola, mas do lado de fora. Isso garantia uma vantagem estratégica, já que, para comprar dele, não era necessário esperar abrirem os portões. A propósito, esse vendedor também não tirava os rótulos das garrafas. Aposto que muito preguiçoso pagaria 50 centavos a mais por este serviço.

Como no dia anterior, abriram os portões às 8 horas, e foi o estouro da boiada para dentro do prédio. Engraçado como as pessoas pensam que, se chegarem antes que todos os outros na sala de prova eles farão uma prova melhor. Eu tenho um pensamento ligeiramente diferente: eu farei uma prova melhor se antes de começar eu fizer todas as minhas necessidades fisiológicas. E foi para este fim que utilizei a meia hora entre a entrada e o começo do exame do dia. Gostaria de fazer uma pequena observação sobre como os banheiros masculinos em colégios dirigidos por freiras são marginalizados e escondidos, forçando os homens que desejam utilizar o toalete deslocarem-se pelo menos 50 metros a mais que as mulheres. CADÊ A IGUALDADE DE SEXOS AQUI?!?! Não vem ao caso de qualquer maneira.

Depois de meia hora enchendo murcilha nos corredores, decidi que seria melhor apresentar-me na minha sala. Muitos dos vestibulandos que faltaram no dia 7 apareceram hoje, talvez na esperança de conseguirem uma vaga por sorteio. HA! A gótica hoje usava uma blusinha vermelha, com a mesma saia do outro dia. Será que o cinto que ela usa foi costurado diretamente em sua cintura, impedindo que ela troque de saia? Ou ela nasceu usando aquela saia preta? E, aliás, o que uma gótica quer na Psicologia? Mais a frente, um indivíduo usando uma camisa branca completamente desabotoada por cima de uma camiseta física, com cabelos lambidos para trás, tomava Red Bull enquanto passava o cha-la-lá em uma coleguinha. Sim, estamos falando do Amante Latino®, primeiro, único e insubstituível. Só esperava que todo o gel que ele passou nos cabelos não tenha atrapalhado seu desempenho intelectual (que mentira, claro que eu esperava isso!).

Hora da prova. Nunca vi uma prova de geografia tão complicada. Alguém sabe onde fica Frederico Westphalen? Qual é a atividade econômica local, além da boa e velha fofoca entre vizinhos? Será que a prefeitura ganhou um cachê por aparecer na prova da UFRGS ou teve que liberar um jabá na mão da COPERSE para ser citada? Química costumava ser mais divertida no tempo de escola, quando tudo o que tínhamos que fazer era tocar fogo em algumas porcarias e proteger os olhos por causa da explosão. Bem que essa prova poderia ter sido igual. Com a Biologia, a coisa foi mais tranqüila. Nem parecia que no começo do ano eu só sabia que aves têm penas!

Como podem imaginar, demorei bastante antes de terminar todas as questões e sair para o almoço. Voltei para casa de lotação mais uma vez. Como ele sempre me deixava a alguns quarteirões de distância de casa, eu precisava caminhar e dobrar uma esquina. Adivinhem como me perdi hoje? Esqueci onde era essa esquina. Só me dei conta que tinha deixado algo para trás quando passei na frente de uma escola infantil com os 7 anões na frente. Pensei em fazer alguma coisa com aquelas estátuas bestas, como, por exemplo, coloca-las no meio da rua com uma placa escrita “Sexo oral por um prato de comida”. Seria realmente divertido, e provavelmente alguém já teria feito isso antes de mim, se não fosse a cerca elétrica que protegia os nossos amiguinhos anões de jardim. Voltar para casa e almoçar era o melhor que podia fazer.

Às 3 da tarde, como sempre, teríamos a aula pré-prova, mas hoje seria um pouco diferente dos outros dias, pois meu transporte dependia exclusivamente de mim. Contrariando o que aprendi sobre os meios de transporte coletivo porto-alegrenses, decidi pegar um ônibus. Levei meia hora só para descobrir o ponto correto, e só decidi pegar um táxi quando meu atraso já era certo. ME ABANE TERESINHA!

Depois do pré-prova, o momento que eu mais ansiava: jogar sinuca. O Róger, que tem a incrível habilidade de descobrir todos os barecos e buracos com mesa de sinuca num raio de um quilômetro quadrado, nos apresentou ao Porto 10, lugarzinho show de bola com mesas muito boas (dava até pra jogar nelas!). Hoje foi meu dia de brilhar. Se tivesse ido tão bem na prova quanto eu fui na jogatina do dia, eu teria gabaritado biologia e química (geografia eu ainda teria errado aquela de Frederico Westphalen).

Como o pessoal ainda tinha fôlego de sobra depois de beber cerveja e sinuquear, fomos a pé, desde o bairro Floresta até o Parque da Redenção, algo em torno de 6 ou 7 quilômetros de distância. Uma verdadeira mixaria. No caminho, passamos pela Faculdade de Medicina e pela Escola de Engenharia mais uma vez. É um prazer incrível passar por um lugar e poder dizer “Puta merda, eu já me perdi aqui!” Coisas que só o vestibular faz por você...

Mas eu não tinha muito tempo a perder pois, para variar, precisava voltar para casa antes que o expediente dos trombadinhas e tarados começasse (8 horas) para jantar, e depois do jantar, me apavorar com a prova do dia seguinte: Física e Matemática.