quarta-feira, 6 de junho de 2007

Relatos de um Calouro no Movimento Estudantil da UFRGS

Acho que faz uma semana desde que li a respeito da invasão da reitoria da USP pelos seus estudantes. Sentindo o cheiro da "pólvora no ar", ou em outras palavras, a eletrecidade na atmosfera acadêmica, me flagrei pensando "tomara que arrebente uma merda parecida aqui na UFRGS, pra que eu possa invadir a reitoria também!"

No dia 5 de junho de 2007, aproximadamente às 9 horas da manhã, estava caminhando pelo Campus do Centro, procurando um computador que não estivesse Orkut bloqueado (era pra coisa útil, gente, eu juro). Caminhar pelo Campus do Centro é uma experiência maravilhosa para mim, que vivo no Campus Saúde. Meu campus, se é que posso chamá-lo assim, é tudo, menos um campus universitário. É um amontoado de prédios da UFRGS, que calham de estarem fisicamente próximos uns dos outros. Mas não há nenhum tipo de interação real entre os cursos: estudantes de Farmácia ficam na Faculdade de Farmácia, estudantes de Psicologia ficam no Instituto de Psicologia, separados por grades e preconceitos. No Campus Centro ocorre justamente o contrário: todos estão juntos de todos, caminhando por entre os prédios históricos, jogando truco no Bar do Antônio, interagindo.

O Campus do Centro é sede de vários cursos, mas o principal deles não é contado como tal: o curso de Movimentação Política.

Durante minhas andanças, acabei passando na frente da Faculdade de Educação, onde havia um aglomerado de pessoas em torno de alguém com um megafone. Eu sabia o que era, pois tinha recebido um panfleto sobre um ato público naquele local ainda noutro dia. A curiosidade me levou até lá, para tentar escutar o que diziam. Me arrependi. Tudo o que ouvi foram gritos de guerra batidos, como "Cotas na UFRGS Já!" "Pela universidade pública popular de qualidade", e um punhado de outras abobrinhas que, de tão irritantes, fiz questão de não conseguir lembrar. Fui para a livraria da universidade, que estava vendendo livros por 6,50. Fiquei lá por pelo menos trinta minutos, olhando para as capas dos livros mais interessantes. Nem passava pela minha cabeça que eu estava apenas 400 metros de uma importante manifestação.

Foi depois de uma aula particularmente chata que fiquei sabendo que a reitoria da UFRGS tinha sido ocupada por estudantes em protesto. A primeira coisa que passou pela minha mente não foi aquela imagem romântica dos estudantes, lutando por um mundo melhor, invadindo a sala do reitor opressor e clamando por melhoras. Na hora, pensei "Virou modinha essa história de invadir reitoria agora, porra?!?!" Mas, mais uma vez, o cheiro de pólvora no ar era intoxicante, e meu lado racional lutava contra o desejo de ir lá acampar no saguão.

Decidi ver por que estes estudantes protestavam de forma tão veemente, e li outro panfleto, que me entregaram naquele mesmo dia, com muito mais atenção do que li o outro. Está escrito:

Pauta de Reivindicações:
1) Apoio à ocupação da Reitoria da USP;
2) Contra a Reforma Universitária;
3) Redução da taxa do vestibular e ampliação das isenções totais;
4) RU na ESEF já!;
5) Ampliação do RU do Vale;
6) Garantia definitiva dos espaços estudantis. Ninguém toca na TOCA, no CECS, no CEABi e no DACOM;
7) Novo prédio do Instituto de Artes;
8) Ações afirmativas na UFRGS. Onde está a diversidade na universidade?

Já falei como senti-me a primeira vez que li sobre os estudantes na reitoria da USP, e entendo a importância das reivindicações número 4, 5 e 6, pois o que seria de mim sem o nosso amado almoço de 1,30 e o sofá do Diretório Acadêmico? Provavelmente um indivíduo mais estudioso, mas profundamente entediado e infeliz. Também entendo a importância de mudar o prédio das Artes para um lugar mais seguro, pois na última festa que fui lá, uma colega minha quase foi atingida por um braço de gesso na cabeça e o elevador de lá é quase um instrumento de tortura psicológica, e sou compreensivo quanto ao fato de muitos acharem que 95 reais de taxa de inscrição um tanto salgado, mas fiquei intrigado com essas coisas de "Reforma Universitária" e "Ações Afirmativas". O que seriam?

A primeira pergunta foi respondida à noite, durante nossa reunião do DAP, por um convidado que fez parte do DCE-UFRGS, mas que acabou saíndo por divergências ideológicas. Segundo ele, que também acabou saíndo do PSTU por divergências ideológicas (esquerdista demais?), a Reforma Universitária é um projeto do Banco Mundial para privatizar o ensino superior público. Como eu não li, ainda, o projeto de lei da Reforma, fico por isso mesmo, apesar de achar um tanto quanto inverossímil esta explicação. A segunda resposta só me foi dada no dia seguinte. Segundo minha fonte, que considero confiável, ações afirmativas são atitudes que as universidades tomam para aumentar a inclusão social de grupos menos favorecidos, como pobres e negros. E negros pobres. Estava pensando seriamente em ir ocupar a reitoria também, fazer um pouco de turismo por aí, mas me lembrei que tinha trabalho para fazer. Iria para lá se o local continuasse ocupado até quarta-feira.

Dito e feito, quarta-feira dia 6, às 18:30, estava eu e meu companheiro de indiadas Bétts na frente da reitoria, para uma assembléia de estudantes que ocorreria naquele local. Ficamos assistindo, com muito entusiasmo, uma apresentação dos estudantes de Artes Dramáticas. Minha alta sensiblidade para as subjetividades artísticas me levaram a refletir que caralho eu estava fazendo naquele lugar assistindo teatro subsubjetivo. Mas logo a assembléia começou, e discutiu-se de cara uma pauta de extrema importância para a humanidade: a posição da caixa de som. Parecia uma piada de mau gosto aqueles caras com ares de importância dizendo "a proposta número 1 é colocar a caixa no meio do saguão. A proposta número 2 é deixar a caixa onde está, em cima do balcão". Mais dois minutos dessa lenga-lenga e eu iria propor pendurar a caixa no teto.

Não sei se foi só impressão minha, mas os caras do DCE pareciam estar servindo algum interesse que não do movimento estudantil (já falei que eles são filiados ao P-SOL?). Diziam que a assembléia seria democrática, mas também diziam que só alguns poderiam falar (quem era do DCE) por questões de "praticidade". Claro que esta história não colou, e todos que quisessem poderiam, desde que se inscrevessem antes, falar no microfone por até 1 minuto.

Na teoria isso deveria funcionar, mas na prática a coisa foi bem diferente. Tive a ligeira impressão de que o relógio corria mais devagar para quem ia lá na frente falar "Esta ocupação foi uma grande vitória, um marco na história do movimento estudantil", do que quem ia se opor às posições do DCE. E o Guardião do Tempo, o Cara que ficava controlando o tempo, fazia questão de a cada 15 segundos dizer para estas pessoas que o tempo estava acabando. Há boatos que o fio do microfone encolhia magicamente quando alguém deste segundo grupo ia falar. Também fiquei com a impressão de que o chefe do DCE estava na fase da fixação oral que Freud falava, pois ele só largava o microfone a cara e custo. E quando largava fazia beicinho (tá, não fazia, mas bem que gostaria de fazer).

Segundo o DCE, todas as reivindicações que citei acima, menos as de número 1 e 2, foram aceitas pelo reitor, graças à ocupação: a taxa do vestibular será cortada pela metade e as isenções totais serão ampliadas já no próximo concurso, os RUs da ESEF e do Vale ficarão prontos até o final do ano, os espaços estudantis estão garantidos e o Instituto de Artes será movido para o antigo prédio da Faculdade de Medicina no Centro. Inacreditável! Uma guria da História que estava sentada do meu lado no chão do saguão fez uma observação muito interessante, que era muito improvável que uma ocupação de um dia conseguisse mudar as idéias do reitor tão rapidamente. Fiz alguns cálculos mentais e cheguei a seguinte conclusão: 400 estudantes na UFRGS, ocupando a reitoria por um dia, conseguiram muito mais concessões do que 1500 estudantes da USP, que ocupam a reitoria deles há mais de 35 dias. Eu esqueci de falar antes, mas o RU da ESEF é uma reclamação antiga dos estudantes, e a manutenção dos espaços estudantis ainda mais, especialmente no caso da Toca. É realmente significativo que o reitor tenha cedido em tantos pontos nevrálgicos. Provavelmente, os projetos já estavam engatilhados, mas agora foi a hora perfeita para o DCE anunciá-los como conquistas do movimento estudantil.

No fim da assembléia, foi decidido que a ocupação já tinha sido vitoriosa, e, para não por as recentes conquistas a perder, ela deveria ser encerrada. Os estudantes sairiam do saguão da reitoria de cabeça erguida! Vitória! "Ocupar, Ocupar, Resistir pra Estudar!" "Na USP, na UFRGS, quem disse que não viu? Quem disse que tá morto o movimento estudantil!"

Dois colegas meus, um tanto quanto mais velhos do que eu, tanto em idade quanto em vida em universidade, disseram basicamente a mesma coisa: quando você vai nessas manifestações políticas, você tem seus próprios motivos para tanto, seja ideologia, inércia ou vontade de fazer baderna. Mas quem articula estes movimentos também tem motivos próprios, especialmente poder. E, mesmo que você não queira, você acaba servindo de escada para eles. É importante lembrar que praticamente todos os políticos de nossa época começaram nos movimentos estudantil ou sindical.

Desta vez, fui apenas um observador. Talvez, numa próxima manifestação relevante eu seja mais do que isso. Não sei. Mas vi que quem entra nessa brincadeira tem que seguir as regras estabelecidas: coação, fraude, incoerência. Talvez eu entre nesta história para acabar com isso, caçar os marajás. Mas eu não posso me esquecer que o último Caçador de Marajás era o maior de todos os marajás. Talvez eu esteja completamente equivocado quanto as minhas posições. Por enquanto eu não sei responder se fiz escolhas erradas. Me perguntem isso daqui a dois semestres.

Já dizia Nietzsche: "Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você."







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-Dicionário para quem está mais perdido do que peido em bombacha:
*USP - Universidade de São Paulo;
*UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Onde eu estudo atualmente;
*DAP - Diretório Acadêmico de Psicologia. Lugar bacanoso;
*RU - Restaurante Universitário. Local de rango barato;
*ESEF - Escola Superior de Educação Física. Também conhecida como Campus Olímpico;
*Campus do Vale - Campus mais isolado fisicamente. Notório pela alta densidade de usuários de substâncias tóxicas (drogados) e por seus parques temáticos (fumódromo). Também conhecido como "A Selva";
*Toca - Lugar todo especial onde os estudantes de Letras e História vão para cheirar maconha e fumar cocaína;
*CECS - Centro Estudantil de Ciências Sociais (presumo eu);
*CEABi - Centro Estudantil da Arquivologia e Biblioteconomia. Só descobri que essa birosca existia ontem;
*DACOM - Diretório Acadêmico da Comunicação. Tem uma mesa de sinuca supimpa lá;
*DCE - Diretório Central Estudantil. Se você procurar no Google, vai aparecer "Você quis dizer: Máfia"

1 comentário:

Lady Hell disse...

Olha...Privatizar o ensino público, ainda mais as federais, é como dizer que a UCS vai ser federalizada: um absurdo!!
E também, é só o que falta isso virar modinha aqui tb, pq, numa federal tu só perde tempo, aki na UC$ a gnt perde mto dinheiro, além do próprio tempo...

Essa baderna na UFRGS foi mto mais oportuna pro DCE e reitoria do q qlqr coisa. Óbvio que aqueles projetos já estavam encaminhados. Foi uma jogada bem feita...